terça-feira, 8 de dezembro de 2009

EU PERDIDO, ENTRE MEU PAI E BRIZOLA




















Dia da posse de Brizola


Em 58 conheci Brizola em pessoa na minha serrana Garibaldi, num comício noturno, nos altos de um café tradicional da cidade, que ainda tinha sotaque da antiga colônia italiana.

Meu pai era do diretório municipal do PTB (do Getúlio, não da Ivete) e insistia a toda hora que eu deveria conhecer "e me apresentar" ao homem.
- Vai e diz: estou contigo, Leonel!

Eu andava pelos 16 anos, estudava num internato em Porto Alegre e na ocasião estava de visita à família nas férias de julho, mas meus interesses ainda não incluiam a política. Além disso, o tom impositivo das decisões do meu pai já começava a me causar uma inquietação constante e um nervosismo que eu mal conseguia conter ou disfarçar.

Era início da noite, um grande foguetório recepcionou a caravana. Brizola desembarca do carro na frente do diretório, todos querem apertar sua mão. Meu pai me arrasta pelo meio da multidão, passa na frente de alguns correligionários mais deslumbrados e me coloca de frente para o homem e num tom da maior intimidade - não faço a menor idéia se ele tinha alguma chegança no líder, pelo menos até então - enlaça a cintura de Leonel Brizola, exclamando: "Leonel, quero te apresentar meu filho mais velho".

Enquanto me apertava a mão com força, Brizola falou rapidamente alguma coisa que não consegui ouvir direito, devido ao vozerio e ao alvoroço da sala apertada e cheia de gente. No momento seguinte uma pequena multidão já arrastava o homem para fora da sala de onde foi direto para uma sacada do segundo piso do prédio.

Durante todo o comício meu pai não arredou pé da sacada, grudado no homem e gritando de vez em quando "apoiado" e "muito bem, Brizola".

Naquela eleição Brizola ganhou com uma vantagem de mais de duzentos mil votos sobre o coronel Walter Peracchi de Barcellos. E meu pai ganhou uma pequena fortuna apostando com alguns amigos, mas adversários políticos. Era jogo a dinheiro, casado e guardado no cofre do ecônomo do clube social da cidade. De um ganhou dando cinquenta mil votos de vantagem. De outros ganho no taco-a-taco. Dessa vez, Seu Arno ganhou lindo. Mas perderia, e muito nos anos seguintes.

Palanques, cátedras e púlpitos sempre fascinaram Seu Arno. Ele mesmo proferia calorosos discursos e arengas por qualquer motivo. Mas, por culpas do destino ou da vida, tinha um marcado sentimento de inferioridade por não ter estudado em colégio ou faculdade.

E projetava tudo isso com muita ênfase para cima de mim, dia após dia, visualizando uma trajetória para seu primogênito, "futuro bacharel", "brilhante orador", quem sabe, talvez, "um nobre causídico", me encurralando mais e mais para o que ele considerava muito justamente uma carreira de valor.

A pressão começou bem cedo. Eu ainda não terminara o primário e já era compelido, cooptado e instigado a "discursar", a "declamar", a me "posicionar como orador" em aniversários, casamentos e todo tipo de evento que reunisse mais de uma dúzia de pessoas.

Sua primeira providência foi comprar um "Manual do Orador", com discursos prontos para qualquer tipo de efeméride. Minha estréia foi no casamento de um primo, eu deveria ter no máximo uns dez, onze anos de idade.

No meio da festa, meu pai interrompe a música e solicita aos convivas uma pausa para uma homenagem aos noivos. Seu filho, "jovem orador", faria um discurso, como já prometido, em homenagem ao casal nubente.

Dito isto, fez-me subir a uma cadeira, de onde proferi - numa entonação cheia de timbres retóricos e gestos previamente marcados e ensaiados no papel que eu decorara horas antes, não sem deixar de sentir um tremendo nervosismo, por medo de esquecer o texto na hora - minha primeira apresentação em público.

Tudo deu certo, as palavras sairam vibrantes - reconheço que tenho certo talento para a coisa - veio uma tempestade de aplausos. Vi os olhos úmidos de meu pai, a boca semi-aberta em êxtase, a cabeça levemente caída para o lado, os braços abertos em atitude de plena satisfação.

Daí para a glória precoce foi um pulo. Fiquei conhecido como "o guri do Arno, aquele que discursa e declama uma barbaridade".

Algum tempo depois, no Grupo Escolar de Carlos Barbosa fui destacado para ser o marchador-pelotão nos desfiles da Semana da Pátria. E ao final das marchas ao som do bumbo e do tarol, subi aos palanques e declamei um soneto patriótico, arrebatando aplausos e cumprimentos da diretora e das professoras da escola.

Mas, para minha surpresa, nesse dia, Seu Arno ficou em casa me esperando. Não compareceu ao evento. Me cobrou um longo relatório, a marcha, a declamação, os aplausos, quem me aplaudiu, quem me cumprimentou. E também comecei a perceber que o temperamento exaltado da alma paterna já possuia, ao lado das eventuais alegrias, a marca de alguma amargura indelével.



Assim foi esse período da minha infância, mais ou menos nesse tom e ritmo

domingo, 4 de outubro de 2009

O renque de eucaliptos.


Tio Alberto que na família era chamado de Berto foi enlouquecendo silenciosa e completamente logo depois do fim da Segunda Guerra, não por causa da dita guerra ou das perseguições aos descendentes de imigrantes, muito comum naquele tempo, mas porque, dizia-se na família, Berto tinha perdido todo o dinheiro na quebradeira dos bancos e isso, talvez, diziam, tinha afetado irremediavelmente sua cabeça.
Passara a guardar o pouco dinheiro economizado na venda das colheitas debaixo do colchão, já que, como se sabia, os bancos não eram de confiança. E então, de uma hora para outra, Berto foi sendo tomado por forte sentimento de desconfiança, de tudo e de todos.
Seu quarto ficava sempre fechado à chave, que ele trazia na guaiaca, um cinto largo de couro com vários compartimentos, onde também guardava moedas, palha e fumo, um coldre e bainha para arma branca. Também era voz corrente na família que a falta de mulheres na vida de Berto seria uma das causas de sua loucura. Mas o tempo e o vento principalmente se encarregariam de negar
essa tese.

No final dos anos 40 a Vila do Lageadinho onde moravam quase todos os parentes de Berto se erguia na margem direita do rio Taquari, que nasce nos Aparados da Serra e desce naquela região de Encantado no sentido norte-sul. Na altura do Lageadinho o vale do rio forma uma grande planície de quase dois quilômetros de várzea, ladeada por montanhas dos dois lados. No vale, nos meses de outubro e novembro, a força do vento canalizado pelos morros balança os extensos milharais plantados logo depois do final do inverno.

Na noite em que Berto teve o grande surto, uma ventania fora do comum sacudiu casas e paióis por longas horas durante a madrugada. De manhã encontraram Berto espumando pela boca, em delírio, disparando palavras sem nexo no escasso dialeto vêneto do vilarejo. Ele estava junto a um comprido renque de mudas de eucalipto que plantara freneticamente desde o início da noite até pouco antes do sol nascer.

O Lageadinho ficou em estado de choque. Onde se viu, plantar eucalipto de noite. Berto plantara uma extensa fileira de mudas na extrema do potreiro que acompanhava a estrada, numa linha reta de quase quinhentos metros.
De bruços ou de barriga para cima, não saiu mais dali. Soltava um uivo agudo e praguejava contra Deus, a Virgem Maria e a Igreja. Primeiro chamaram o padre, que preferiu rezar à distância daquela alma danada. Sem conseguir resultados imediatos, o padre decidiu voltar à cidade, de onde retornou em seguida com um médico, um enfermeiro, uma ambulância e quatro soldados da Brigada. A chegada da polícia e do aparato médico trouxe Berto de volta à realidade.
Instintivamente puxou do facão, correndo para o descampado do potreiro, brandindo a lâmina em defesa. Foi cercado, laçado como um boi brabo, levado de arrasto e empurrado com violência para dentro da ambulância.

Berto foi levado para Porto Alegre onde foi internado no Hospício do Partenon. Lá ficou por mais de três meses. Um dia fugiu, atravessou a cidade a pé, de madrugada. Vadeou a nado os rios Gravataí, Sinos e Caí, sempre caminhando de noite e dormindo de dia no mato, escondido da polícia e dos enfermeiros do hospício, que ele imaginava em sua perseguição.
Depois de vagar dias e noites pelos campos da Depressão Central , Berto reencontrou o Vale do Taquari, sempre guiado pela vazante do Jacuí.

Chegou no Lageadinho depois de 150 quilômetros de caminhada, morto de fome, os pés em carne viva. Parecia um bicho envolto em trapos. Temerosa, a família não permitiu que dormisse na casa. Arrumaram um quartinho no paiol de milho e láficou Berto.

Raramente saia. Comia a comida e trocava a roupa que as irmãs traziam, mas não freqüentou mais a casa da família. Nunca mais foi à missa nem à bodega do vilarejo, mas ajudava na época de plantio e colheita. Criou fobia de polícia. Bastava que dissessem, mesmo de brincadeira, olha a polícia que ele saía rápido em direção ao paiol.

O tempo foi passando e duas décadas mais tarde a estreita fileira de mudinhas de eucalipto, plantada por Berto na noite em que enlouqueceu - transformou-se numa imponente muralha de troncos com atévinte e cinco metros de altura. Eram quase trezentas árvores enfileiradas de uma ponta a outra da cerca.
Nas tempestades, enquanto o vento ondulava os galhos mais altos, Berto perambulava por entre os troncos, admirando lá de baixo a copada revolta das árvores.
Pelo resto de seus dias Berto passou vigiando quase que diariamente a fileira de troncos, matutando em silêncio e observando a direção dos ventos.

Berto e sua loucura tranqüila passaram a fazer parte dos costumes e hábitos do Lageadinho, como a festa do padroeiro, as enchentes e as colheitas. O tédio, a indiferença e o pouco caso das pessoas nunca deram importância ao plantio do eucalipto, gesto que ficou conhecido apenas como mais uma extravagância daquele maluco solitário.

Berto morreu num dia qualquer dos anos 70. Sua parte na propriedade da família foi dividida entre os irmãos e seus poucos pertences doados à capela da vila. De Berto mesmo, a única lembrança que ficou foi o renque de eucalipto.

Alguns anos depois, quando a prefeitura do município mandou asfaltar a estrada do Lageadinho, o renque inteiro foi posto abaixo. Todos os eucaliptos foram cortados. Ficaram apenas as toras decepadas a menos de 50 centímetros do chão


Os dias se passaram e aos poucos um sentimento de estranheza foi tomando conta das pessoas. A paisagem era outra. Por mais que ignorassem era evidente que alguma coisa ali fazia falta. Uma muda e perturbadora sensação passou a tomar conta das pessoas, como se o corte do renque tivesse contrariado algum desígnio secreto.

A confirmação do pressentimento veio na primeira ventania daquele mesmo ano. Sem a defesa do quebra-vento natural formado pelos troncos e galhos dos eucaliptos, os ventos arrasaram metade da vila, derrubando paredes, destelhando casas e pondo abaixo árvores isoladas, arrastando gado e cercas.
No dia seguinte Lageadinho parecia saída de um terremoto ou de um incompreensível e inexplicável desastre. Era a primeira vez em mais de oitenta anos de vida que o lugar sofria uma catástrofe daquele porte, muito pior que a enchente de 41 que cobriu de água toda a várzea.

E então para o povo do Lageadinho ficou claro o gesto de Berto, quando, naquela longínqua madrugada de depois da guerra ele decidira plantar o renque de eucaliptos.
Berto intuira, na sua loucura, que o renque seria uma defesa para a vila, uma barreira contra os ventos. E guardara sua intenção em silêncio, como se ninguém mais do que ele merecesse a dádiva e a dimensão daquele ato, sóagora completamente entendido e revelado à sua gente.

Nos anos seguintes as toras decepadas brotaram novamente e as árvores foram renascendo. O renque de eucaliptos se refez e está de pé até hoje.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pela Via Maris atravessando o Armaggedon

Tiberíades, de manhã

Há dois mil anos a Via Maris partia de Cesaréia, na beira do mar, subia a encosta da planície de Shefelá, deixando à esquerda a meseta do Carmelo, nos contrafortes do Vale de Jezreel, cortando solenemente o Armagedon, ou Megguido, uma planície devastada pelo sol, onde hoje, depois que os israelenses drenaram a área, crescem lavouras de trigo, centeio e girassol.

Dali a estrada toma o rumo das colinas da Galiléia, costeando o Lago Tiberíades, passando ao lado dos Picos de Hittin, onde Saladino, aliás Salah-Ha-Din, derrotou definitivamente os cruzados. De Hittin, a rodovia atravessa as montanhas do Golan , entra na Síria e vai até Damasco, completando a ligação entre o Oriente Profundo e o Mediterrâneo.

Ao longo da estrada atual, a cada quilômetro emerge da terra nua e crestada a tubulação de água que atravessa Israel de norte a sul. Essa água sai do Lago de Tiberíades, aquele mesmo onde o apóstolo Pedro, aliás Simão Pedro, pescava - e vai sendo distribuída para todos os rincões do país, em tubulações cada vez menores. Quando a água chega no pé da planta, é controlada por um sistema de relé, que desliga quando chove. Quando não chove, goteja dia e noite, mantendo tudo verde, desde as alfaces da horta do kibutz até o gramado dos hotéis de turismo praiano em Tel Aviv.

Atravessamos velozmente as lavouras sulcadas do Vale do Armaguédon e eu me pergunto se não haveria um lugar melhor para acontecer a decantada batalha final, assinalada pelas profecias para ocorrer nesse mesmo vale no final dos tempos. Por enquanto, apenas um ou outro trator agrícola arrasta-se pachorrento, preparando o solo para a próxima safra. Pelo menos aqui, neste vale pretensamente apocalíptico, os arados insistem em substituir a espada.

Continuando pela Via Maris, a Estrada do Mar, logo nos deparamos com a riqueza milenar do Oriente, a oliveira. Centenas, milhares de oliveiras vão cobrindo de verde as encostas. De repente, no meio dos olivais, um posto de gasolina ou uma agência bancária surpreendem os visitantes. No período romano a Via Maris era totalmente calçada com pedras e só terminava em Damasco, a uns 90 km adiante.

A primeira parada do roteiro é Nazaré, administrada pela Autoridade Palestina. Nas cidades árabes as casas não tem telhado. O teto serve de cisterna para colher a eventual água da chuva. Nazaré deve ter uns 40 mil habitantes, vive do turismo, a parte central está tomada pelo comércio de suvenir. Faz um calor quase insuportável, as ruas não tem uma sombra, não há uma árvore onde alguém possa proteger-se do sol incandescente da Galiléia.

Não consigo ficar um instante sem a proteção dos óculos escuros. Bebo água mineral a cada 10 minutos. Depois de uma rápida caminhada decido retornar ao conforto do ar condicionado do ônibus. Charlie, o guia, retorna com o resto da turma,

e ao me ver prostrado na poltrona, grita dizendo que eu estou pronto para passar um dia no deserto!

Uma hora depois, de volta à Via Maris, avistamos ao longe o azul do Mar de Tiberíades - Kinéret em hebraico, Tiberíades é a nomenclatura grega da época quando o uso dessa língua era universal e Roma e Atenas e o império estavam nas mãos de Tibério.

Aqui também os morros estão sempre cobertos pelas oliveiras. O ônibus vai descendo em direção a Cafarnaum (Kfar Nahum), a Aldeia de Naum, nossa primeira parada junto às águas tranqüilas desse lago histórico e bíblico.

De onde estamos não se vê areia nem praia, a água bate diretamente no penhasco. Na rocha é bem visível a marca do nível da água, dois metros mais baixo, devido ao excessivo consumo dos últimos anos. Me diz o Charlie que a conta de água em Israel é três a quatro vezes mais alta do que a taxa de eletricidade, o que é bastante compreensível, neste país onde a água não cai do céu. E quando cai é recolhida e conservada em reservatórios e cisternas.

Novo desfile de ruínas históricas em Cafarnaum: sinagogas milenares, destruídas por seguidas guerras. Templos cristãos com inscrições em grego antigo. Restos de tumbas com a data precisa do nascimento e morte de seus ocupantes.

De Cafarnaum à cidade de Tiberíades, há uma profusão de arbustos floridos nos dois lados da estrada, dando um aspecto ajardinado à rodovia. A cidade está comprimida entre a montanha e o mar de água doce. Casas magníficas foram construídas em terraços em toda a extensão da montanha circundante. E novamente a arquitetura absolutamente branca das cidades israelenses domina a paisagem.

Depois de visitar uma loja de diamantes lapidados, seguimos em direção ao sul do Kinerét, onde o Jordão retoma seu leito rumo ao Mar Morto. As margens desse estreito curso de água são protegidas por uma densa e alta mata ciliar. Dessa forma a água do Jordão está sempre fria, devido ao sombreado do arvoredo que a circunda nas duas margens.

O Jordão é o paradeiro de milhares de turistas evangélicos que ali vem renovar o batismo em suas águas. Nessas “estações” de batismo há naturalmente um comércio intenso de suvenir. Nos restaurantes, o prato tradicional é o peixe de São Pedro, uma carpa que é pescada em abundância no Tiberíades. É de fato muito saborosa, frita ou assada.

De repente uma chicotada sonora estilhaça nossos ouvidos. É um jato da força aérea israelense patrulhando a área. Todos olham para o céu, mas não se vê nada. Quando o estampido nos atinge a aeronave já passou. Voltamos à nossa carpa frita, comodamente sentados numa mesa de varanda do restaurante à beira-mar.

Fiz camaradagem com um jovem casal de engenheiros italianos. São de Roma e claro, falam italiano o tempo todo e comigo arranham o inglês. Lá pelas tantas acabei confessando minha origem peninsular pelo lado materno. Me arrependi de ter revelado esse detalhe, porque os dois passaram a falar só italiano comigo. Mas foram uma boa companhia durante o tempo que estivemos juntos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

DIÁSPORA DE MUITAS MORADAS


Com exceção de minha mãe - nascida e criada no Passo do Lageadinho, em Encantado, endereço cuja lembrança a deixava tomada por imensa nostalgia - pertencer a alguma querência nunca fez sentido para mim, meus irmãos ou meu pai.

Quando me perguntavam de onde eu era, sentia um certo constrangimento e, no mais das vezes, até conseguir explicar que tinha nascido em tal lugar mas que já morara em quatro ou cinco outros lugares diferentes, a conversa já tinha perdido a graça.

Meu pai nasceu no interior de Montenegro, no distrito de Brochier. Detalhe: um incêndio teria destruido o cartório do lugar e assim seu Arno nunca conseguiu retirar uma segunda via da certidão de nascimento. Mas identidade e documento nunca lhe faltaram.

Desde muito jovem, treze ou catorze anos, o ainda adolescente Arno Holderbaum foi o que chamamos hoje de livre e independente. E com condução própria. A cavalo, percorreu boa parte da Serra Gaúcha, que nos anos trinta era uma teia formada por centenas de vilas e colonias interligadas por um emaranhado de picadas e estradas precárias, um desafio épico para os raros motoristas de então.

Seu Arno só dispensou o cavalo quando melhorou de vida e casou, indo morar na cidade de Encantado, numa casa comprada com o dinheiro ganho no negócio das pedras semipreciosas, que ele já então industrializava numa oficina de lapidação, instalada naquela cidade.

Desse momento minha mãe me contou a última lembrança de Bailongo, o alazão que me carregou quando eu ainda usava fraldas.

Eu já era bem grandinho e minha mãe, católica, queria me batizar contra a vontade do marido - que se dizia protestante e com uma postura acentuadamente anticlerical. Acontece que o padre do lugar nega-se a me batizar, por tomar conhecimento de que meu pai, além de não ser católico, tinha se recusado a casar em cerimônia religiosa.

Dá-se que seu Arno e o padre encontram-se por acaso, numa das estradas, ambos a cavalo. O padre, mal cumprimenta, vai direto ao assunto, procurando se explicar e defendendo, naquele caso, as posições e as normas da Igreja.

Leigo, mas conhecedor de alguns fundamentos republicanos, seu Arno respondeu na bucha que filho dele "não precisava de batismo" e que ele dispensava toda e qualquer religião, principalmente aquela que obrigava um homem "a andar vestido de saia". Desnecessário dizer que os padres, naquele tempo, ainda usavam batina.

Daí para o desentendimento aberto foi uma faísca. O padre, ofendido com a audácia daquele forasteiro, também parte para a agressão verbal.

Outros passantes param para assistir à discussão e, diz minha mãe que lá pelas tantas, meu pai não se contém, puxa do chicote, joga o braço para trás, esticando o látego ao máximo e bate com toda força no lombo do cavalo do padre, fazendo o animal disparar. O padre cai literalmente do cavalo, sendo logo socorrido e levado para a cidade. É possivel que essa tenha sido a causa de mais uma mudança de lugar na vida da família de Arno Holderbaum. Mas ninguém até hoje me confirmou.

domingo, 6 de setembro de 2009

TREM DA INFÂNCIA


Fiz algumas viagens de trem, inesquecíveis. A primeira delas foi no verão de 53, nas férias escolares, quando conheci Porto Alegre pela primeira vez. Eu tinha passado no exame de admissão, que era uma espécie de vestibular para o ginásio, quando ainda faltava um ano para completar o primário, ou seja, ao final do quarto ano primário, entrei direto no curso ginasial do Colégio Santo Antonio em Garibaldi, feito que encheu de orgulho meu pai e inchou meu ego a mais não poder.
Como incentivo ao meu esforço e também para poder custear meus estudos, meu pai decidiu pleitear uma bolsa na Secretaria de Educação da Capital. Saímos de tarde, no "Passageiro", como chamávamos o trem que fazia a linha Porto Alegre-Caxias do Sul.
Nos primeiros 60 quilômetros o comboio desceu gemendo entre os cortes dos morros, chiando os freios nos declives.
Quando terminou a serra e de repente chegamos na planície, já quase em Montenegro, a paisagem vai ficando suave e a máquina acelera pelo vale plano do rio Caí. Vem então muitas pontes metálicas, com suas treliças quadriculadas cortando velozes minha retina, como um rolo de filme rodando no projetor.
A partir de São Leopoldo, já noite alta, um mar de luzes cada vez maior e mais intenso seguia junto com a ferrovia. O trem, a toda máquina, acompanhava a estrada asfaltada - novidade para mim - coalhada de automóveis, caminhões e ônibus, e já não parava mais nas pequenas estações desativadas. Éramos apenas alguns passageiros no nosso vagão nos derradeiros quilômetros antes de chegar na parada final.
E foi um pouco antes de chegar na estação de Navegantes que eu tive uma das mais belas visões noturnas do final da minha infância. O Grande Pássaro Metálico pousado no hangar iluminado do Aeroporto Salgado Filho: um gordo, imenso e magnífico DC-3, manobrando lentamente pela pista iluminada na noite intensa daquele iesquecível verão de 1953, se despedindo dos meus doze anos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

TOP MODEL


ERA TÃO MAGRA
MAS TÃO MAGRA
QUE CHEGAVA A SER
TRANSPARENTE
DIÁFANA
VIA-SE O MUNDO
(E A FOME DO MUNDO)
ATRAVÉS DE SEU CORPO










sábado, 29 de agosto de 2009

UM CASAMENTO E DOIS CAVALOS


Meu pai foi o sexto filho de uma prole de nove irmãos. Ainda na escola primária foi excluído das salas de aula, obrigado a trabalhar. Aprendeu a ler mais tarde por conta própria ao mesmo tempo que desenvolvia o aprendizado das quatro operações - tudo mais ou menos de modo autodidata - que muito lhe valeram na vida adulta, quando se tornou, como ele mesmo se denominava, um homem de negócios.

Aos 13 anos saiu da casa paterna para seu primeiro emprego que, por sinal, abominou para o resto da vida. Foi trabalhar como ajudante numa ferraria, emprego ainda sem carteira assinada - na época não existiam as leis trabalhistas instituidas logo em seguida por Getulio - labutando das sete à sete, com meia hora para o almoço.

Pediu demissão no mesmo dia em que recebeu o primeiro salário. Com o dinheiro comprou um cavalo, seu primeiro instrumento de trabalho autônomo. Sobreviveu por mais de dois anos vendendo fumo em corda e bilhete de loteria nas vendinhas de beira de estrada ou nos acampamentos de trabalhadores, que nos anos trinta abriram as estradas de macadame nas colonias da região serrana.

Mais tarde comprou dois cavalos marchadores, "Douradilho" e "Bailongo", referência de seus gostos tangueiros. Nessas andanças, conheceu parte da serra gaúcha, até as margens do Taquari.
Nessa região foi definitivamente atraído pelo comércio de pedras, na época conhecidas como semipreciosas, que eram achadas quase a flor da terra no Vale do Rio Fão, próximo a então vila de Nova Brescia, minha terra natal, distante uns 30 km de Encantado, onde meu pai conheceu minha mãe num baile de ano novo.

A história desse encontro e do posterior casamento tem versões contraditórias.. Uma delas diz que meu pai praticamente impôs a união, cercando a noiva por todos os lados, contrariando a vontade da família dela.

A outra versão conta que a corte do pretendente foi bastante hábil. Já tendo visto a pretendida e com ela trocado olhares, meu pai mandou um emissário com um recado perguntando se poderiam dançar no tal baile de ano novo, posto que minha futura mãe era viúva de um primeiro casamento e essa condição exigia uma formalidade rigorosa para os costumes daquele tempo e lugar.

De culturas e religiões diferentes - ele protestante, ela católica - era quase natural que haveria oposição das famílias. Estavam apaixonados, me disseram vários contemporâneos - e o casamento foi inevitável. Casaram apenas no civil, o que equivalia a um escândalo para a época. As religiões tiveram que esperar.
Foto: Bette Davis e Henry Fonda

terça-feira, 25 de agosto de 2009


TANGO DE LUNAS
(Me voy de lunas)

Estou de luas
Minhas luas
Me voy de lunas

Cães de lua me cercam
Estou no centro das mordidas
Todas impostas
Todas muito bem postas

As luas vem e vão
E logo voltarão
Minhas luas

Me voy de lunas
No verão profundo
Deep summer
Você sussurrou
E depois partiu
Sem dizer adeus
Ouviram-se apenas
Gritos e sussurros
No verão profundo
Verano sureño
Aquele verão perdido
Voando nas asas
De un tango portenho

deep summer,
você gritou
pela vez derradeira
então dei-me conta
os gritos estão sempre
com decibéis a mil
no inconsciente coletivo
na memória coletiva


o velho-novo povo
sobrevive
no girar das mós
en la movida de la luna
minhas luas
estoy de lunas
me voy de lunas

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O QUE EU MAIS GOSTAVA


O que eu mais gostava na primeira infância era visitar minha avó materna, que morava a uns cinco quilômetros da casa de meus pais, em Encantado. Uma vez, causei um grande susto em casa porque decidi ir sozinho e a pé até a casa da Nona sem avisar ninguém. A casa - e também o caminho que conduzia até lá - era literalmente o paraíso para um menino de cinco anos.

De ambos os lados da estrada, imensas plantações de milho acompanhavam o lento trajeto, cintilando à luz do sol, embalada pelo vento suave da manhã.
A casa - ainda está de pé - é uma construção terminada em 1909 - toda em estilo vêneto rural, erguida em dois pisos, com parede de pedra de um metro de largura protegendo a adega do piso térreo, onde meu avô armazenava vinho em tonéis da altura de uma porta.

Nos fundos da casa crescia um pomar imenso com todas as frutas da região, ao lado de um parreiral subindo a encosta do morro. E no meio do pomar, descendo a montanha em direção a casa, um aqueduto desembocava num largo tanque caseiro de lavar roupa, com seu sonoro ruído de ´agua corrente. Do tanque, o fio de água descia para a cozinha e dali para o curral lotado de porcos, galinhas, patos e marrecos.

E quase chegando à margem do riacho, um prado verde se abria ladeado por renques de árvores altas e copadas, abrigando em sua sombra os animais de tração da propriedade.

Nona Maria era o apelido familiar de minha vó materna Maria Fontana Bergamaschi, que o destino ou a falta de água tratada tornou viúva de repente, deixando-a com o encargo de chefiar uma imensa família, com três filhos homens ainda solteiros e mais seis filhas, algumas adolescentes e outras ainda crianças.

Meu avô, Carlos Bergamaschi, morreu de tifo no verão 24 ou 25, no apogeu dos 40 e poucos anos de vida, agricultor já bem sucedido, dono de seu nariz e de sua terra, mas que sucumbiu a uma súbita e mortal febre tifóide, que na época não tinha cura.

Nascido em Gazzuolo, uma aldeia da província de Mantova, no norte da Itália, no ano de 1879, meu avô abrasileirou o nome para Carlos quando aqui chegou, com a idade de 14 anos. Emigrou com a família, saindo do porto de Gênova, na terceira classe de um navio superlotado de camponeses sem terra. Nunca em toda a história da Itália camponesa, jamais um agricultor de Gazzuolo fora dono de sua própria gleba de terra.

Desembarcaram no cáis e Porto Alegre, numa manhã fria de julho de 1893. No ar já se pressentia o cheiro de pólvora da Revolução Federalista que logo iria explodir de norte a sul do país.

Subiram o rio Jacuí, depois o Caí, até Montenegro. Dali escalaram a serra em carroça de boi e montaria de mula até o posto de recepção aos imigrantes na Linha Forqueta, entre Caxias e Farroupilha. Receberam ferramentas e uma escritura de propriedade de 24 alqueires de terra no município de Encantado, mais precisamente no Passo da Linha Lageadinho, a mais ou menos cinco quilômetros da sede municipal.

As primeiras casas, de pau a pique e sapê, fora construidas em madeira recolhida no mato circundante (e bota mato nisso) onde havia animais selvagens de espécies hoje quase desaparecidas. Como proteção, as casas eram cercadas com paliçada, cercas de pequenos troncos enlaçados un nos outros. À noite havia sempre alguém de sentinela, mantendo uma fogueira acesa.

Assim a gente espantava as feras, dizia minha avó, que carregou por toda a vida na lembrança o rugido noturno da onça pintada rondando faminta a casa frágil do Passo do Lageadinho.
Nona Maria faleceu em 1979, com 96 anos de idade.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

ALFABETIZADO NA MARRA

O trem chegando em Carlos Barbosa.

Aprendi a ler antes de entrar para a escola. Meu pai me ensinou as primeiras letras, aliás, exigiu que eu aprendesse a ler, soletrando o cabeçalho do jornal Correio do Povo, da Caldas Junior. Portanto, me lembro como se fosse hoje, eu segurando o jornal nas mãos e seu Arno do meu lado, me ensinando a juntar as letras e o som correspondente na expressão “Correio do Povo”.

Na primeira infância tínhamos rádio em casa. Só meu pai ligava o aparelho para escutar notícias e música. À noite sintonizava as rádios argentinas e uruguaias para ouvir tango. Não me lembro de ter ouvido narração de futebol. Só mais tarde, quando eu já estava no curso primário, mas então já não tínhamos rádio em casa e eu ouvia o do vizinho.

Em Carlos Barbosa foi a primeira vez que me lembro de ter escutado um narrador esportivo. Foi quando escolhi o time para o qual viria a torcer pelo resto da minha vida. Foi uma decisão fruto de um desafio, no meu primeiro dia de aula no Grupo Escolar de Carlos Barbosa, era março de 1951. No recreio, um cara de boné e com um jeito de patrão da área – Domingos Baldasso - me interpelou, perguntando pra que time eu torcia.

Não fazia a menor idéia do time que eu torcia. Não me interessava por futebol, no jornal que, de vez em quando meu pai trazia pra casa, minha preferência ia para os anúncios dos filmes que passavam na Capital, anúncios que eu gostava de recortar e que depois guardava

numa caixa de madeira junto com meus objetos pessoais.

Respondi com outra pergunta ao meu interlocutor: quem era o campeão? O campeão era o Colorado, então eu estratégicamente me declarei colorado a partir daquele momento, numa decisão de ímpeto irreversível e definitivo. Antes daquela decisão não me recordo de jamais ter visto uma fotografia do time colorado. Meu pai, que mais tarde fui saber que era gremista – ignorava solenemente o esporte bretão, como diziam os locutores esportivos.

Ser colorado ou gremista nos dava uma identidade naquelas paragens isoladas da serra gaúcha dos anos 50. Passei a acompanhar a trajetória do meu time escutando os jogos no rádio do vizinho.

domingo, 16 de agosto de 2009

PORQUE EU SOU EXIGENTE

(tributo a Mário Quintana)

Quando eu me for

Para o outro lado

Peço, por favor,

Encarecidamente, gente:

Não me aplaudam

Não batam palmas

Não batam palmas

E principalmente

Não batam palmas

pois de tal sono eterno

Minha alma malcriada

Pode despertar

muito mal-humorada

Que se ouça apenas o canto

De algum passarinho distraído

E o sussurro de um vento repentino

Flanando por entre os ramos do arvoredo

Que não soem instrumentos

Que ninguém cante ou declame

Que cochichem banalidades

Fiquem à vontade

Falem do tempo

E de coisas triviais

Para que meu espírito assustado

Por tal situação mortificante

(mas não menos exigente)

Possa por fim ouvir sossegado

O suave, o sutil

O não repetido frêmito

Da natureza em abandono

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

EUROPA, FRANÇA E GARIBALDI

Paris? não, rua central de Garibaldi - Foto SkyscraperCity

O que mais me faz lembrar da França – onde nunca estive, mas já passei perto – é o maio de 68, que atingiu em cheio minha iniciação política de estudante universitário. Aquele maio ressuscitou as esperanças num mundo melhor – anarquista, por que não? – mas também apagou a imagem libertadora e democrática que eu tinha do presidente Charles de Gaulle, quando nos reduziu a uma única e preconceituosa expressão: chienlit, ou na linguagem dos que não admitem oposição: baderna.

Naquele momento de Gaulle deixou de ser um dos meus heróis da resistência francesa à opressão nazista e passou a representar o que havia de pior na direita mundial. E quem poderia transformar-se em herói naquela França anterior ao horror nazista? Alfred Dreifuss condenado injustamente por traição à França que ele amava e servia como o mais fiel de seus filhos. E Jean Moulin, combatente e organizador da Resistência, cujo triunfo não conseguiu presenciar.

Na minha infância e adolescência, passadas na Serra Gaúcha no início dos anos cinqüenta, a França era presença cotidiana no nome de uma variedade de uva, de casca durinha, a “francesa”, com a qual se fazia um vinho de mesa, simples e delicioso.

Depois, na marca “Georges Aubert”, de vinhos espumantes, produzidos por uma família de vinicultores emigrados da França do pós-guerra, na então pequena cidade de Garibaldi, onde morei até o ano de 1957.

Naquele ano, o paraninfo da minha turma de ginásio foi nada mais, nada menos do que o próprio monsieur Georges Aubert, simpático cidadão francês, que patrocinou meu primeiro porre de champanhe, exatamente no dia da formatura. Éramos provincianos e nos deslumbrávamos com a cortesia e a boa educação daqueles europeus. E como era linda e charmosa aquela França burguesa!

Mas o que seria a França sem Robespierre, sem Marat, sem Danton, ou sem a fúria proletária da Comuna de Paris? Não teríamos história, talvez nem civilização, nem arte, nem literatura, nem cinema. Outras indagações povoariam minha cabeça nos anos seguintes.

O que seria a nossa oprimida adolescência sem as fantasias que nos despertavam os olhares transgressivos de Brigite Bardot? O que saberia eu da contribuição francesa à paz mundial, se não tivesse lido as páginas imortais de “Os Thibault”, a inesquecível trilogia de Roger Martin du Gard? E se meus ouvidos jamais tivessem escutado as vozes inconfundíveis de Edith Piaff e Charles Aznavour ?

Minha lista de símbolos da França perene ainda incluiria muitos outros nomes. Just Fontaine, o maior goleador de todas as Copas. “Jules e Jim”, Magali Noël, Jean Louis Trintignant, Jules Dassin, “Rififi”, Pierre Barouh. E ela, eternamente bela, Caterine Deneuve. E, como disse Ettore Scola, quando terminou de filmar “Casanova e a Revolução” (“La Nuit de Varennes”): basta, fico por aqui.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ANGELA ALICE E O TREM HÚNGARO

Silvana Mangano, em "Arroz Amargo"

Angela Alice foi minha primeira namorada da infância. Morava ao lado do velho cinema da pequena villa de Carlos Barbosa que era então um aglomerado de casarões na rua central e algumas dezenas de casas modesta s no entorno. Ao longodo então segundo distrito de Garibaldi corriam os trilhos da estrada de ferro, atravessando e dividindo o povoado ao meio.

O chefe da estação era o seu Noveli, pai de Angela.

Tudo girava na chegada do trem, que vinha de Porto Alegre, subindo a serra. Ouvia-se o apito na Ponte Seca, entre onze e onze e quinze da manhã. Aos poucos a estação se enchia de gente. A máquina entrava na gare resfolegando fumaça, seu Noveli aguardava na plataforma com o protocolo estendido preso a um pequeno círculo de arame no alto da mão, o maquininista com o corpo para fora da janela pegava o papelucho ar.

Ritual diário de chefe de estação, como também era o toque no sino, anunciando a parada do comboio. Enquanto os passageiros desciam e subiam do trem, eu oferecia pastéis e salgadinhos, que trazia numa cesta presa ao pescoço. Foi meu primeiro trabalho remunerado, que não durou mais de um mês. Não fui um bom vendedor. Comia muitos pastéis, que eram descontados na féria do dia.

Em "Amarcord" do Fellini, o povo de Rímini tem um deslumbramento quando o "Rex", o grande transatlântico, "orgulho do regime" , passaria pela costa do balneário. São cenas patéticas. Nós, em Barbosa, também tivemos esse tipo de êxtase, só que de orgulho ferroviário quando, nos ultimos anos da década de 50, a cidade recebeu a passagem do célebre Trem Húngaro, um luxo para aquela época. Vimos o monstro chegar e parar na estação, conhecemos por dentro e por fora, mas eu, particularmente, nunca viajei nele.


No velho cinema, um casarão de madeira, vi meus primeiros filmes coloridos: "Ali Babá e os quarenta ladrões", com Toni Curtiss e Janet Leigh. E também meu primeiro filme proibido, "Arrroz Amargo", com a estonteante Silvano Mangano, mostrando as pernas com o vestido preso na cintura, tremendo momento erótico do filme.

Meu romance com Angela Alice, absolutamente platônico nos nossos 9 ou dez anos de idade - deve ter sido por volta de 1951 ou 52 - teve seu climax na sessão em que vimos "Amanhã será tarde demais". Angela e sua mãe - senhora de portentosa gargalhada, todo cinema sabia quando ela estava na sala se a fita era comédia - sentaram-se na minha fren-
te assim que começara a sessão.

Agarrei suavemente os cabelos de Angela por alguns segundos. Foi a primeira vez que toquei nela. A segunda e última foi quando a família dela se mudou para Santa Maria. Nos despedimos na estação com um aperto de mão. Nos correspondemos por carta por algum tempo e depois perdi o contato.

O cinema de Barbosa não tinha nome, mas ninguém se importava. Bem mais interessante que o nome era a sirene que soava tres vezes antes de iniciar a sessão. Eram tres longos uivos espaçados por cinco minutos entre cada um e que alcançavam até os mais distante casebres da então vila de Carlos Barbosa.

Um pouco antes de nos mudarmos, eu e Angela Alice descobrimos um depósito de livros ou o que restara de uma antiga biblioteca, nos fundos do casarão que abrigava o cinema.
Uma descoberta que nos tirou o fôlego, porque, além dos livros, seria nosso esconderijo secreto, onde pod[iamos conversar e dividir nossa solidão pré-adolescente.

Quando retornei a Carlos Barbosa, mais de cinquenta anos depois, nada mais restara do cinema, nem da casa onde minha familia morava. A estação ferroviária hoje é um centro cultural. E dentro dela funciona o cinema de arte da cidade, certamente bem mais organizado e moderno, como toda Barbosa é hoje em dia. Uma cidade moderna, rica e ao mesmo tempo pacata e ordeira, orgulho de seus habitantes e que encanta quem a conhece pela primeira vez. Ou a revê depois de cinco décadas.


N. da R.: A foto de Silvana Mangano é uma gentileza do Diário da Fonte (www.outubro.blogspot.com), um achado precioso do jornalista e escritor Nei Duclós, incentivador número um deste espaço, inaugurando o visual deste meu blog.





RIO TAQUARI




(para minha mãe e meus tios maternos)



Rio Taquari das Antas


Que estranho e remoto destino


Corre em teu leito desfeito


Por venenos


E meus banhos de menino



Rio Taquari


Serpente silenciosa e líquida


Descendo a Serra dos Aparados


Indiferente ao progresso


De Lajeado e Estrela


Onde já foste selvagem e bruto


Ainda teimas com tuas barrancas


Abrigando galhos e sementes


E velhos troncos errantes



Ah, antigo e doce Taquari das Antas


Por Muçum e Encantado


Passando vagaroso por Roca


E o Passo do Corvo


Nada devolverá a fúria decidida


Das tuas súbitas enchentes


Nem a limpidez revolta


De certas correntezas de verão



Rio Taquari


Que nasces e morres mil vezes


Na memória dos velhos colonos


Cantar-te-ei uma vez mais


Antes que chegue a noite distante


Em que só restará de ti


A areia fina de teu fundo


Refletindo o eterno brilho das estrelas

Foto: o rio, entre Muçum e Encantado




segunda-feira, 10 de agosto de 2009

POEMA INFANTILPARA ISABELA WAINSTEIN MILLMANN

Isabela, além de bela

Se transforma por tabela

Em muitas Isabelas

Todo mês tem nova Isabela

Que além de bela

Fala isabelês sem sotaque

Mas Isabela tem mais uma

Que também é Isablues

Canto que cura nossa alma

E assim prossegue

A magia cotidiana de Isabela

De repente Isabala

Tão doce nesse inverno

Feito o sustento

Que nos concede o Eterno

E tem também Isabola

Que deita e rola

Redonda e alegre

No playground da fantasia

E assim a cada dia

Surge outra Isabela

Cada vez mais bela

Mudando a tabela

Numa eterna mutação

Trazendo mais esperança

Revivendo nossa infância

E aquecendo os corações

sábado, 8 de agosto de 2009

PAI AVENTURANTE(*)

(para meu pai Arno Holderbaum)

Meu pai viajou de menino

Palmilhando infinito

Deserto-pampa solito

Altíssima serra

Onde a terra

Era companheira

De antiga capa de chuva

Cortada por adaga

E vento

Nem patrão nem carteira

Nunca teve

Identidade alguma

Sina de gente

Vertente

Estancada menina

Seu lar primeiro

Foi relento parceiro

Trotando sonâmbulo

No perau das estrelas

Passou sua vida-minuto

Varando os sete cantos

De léguas e canhadas

Em lombo de zaino e malhado

Casaco e chapéu surrado

Cavaleiro secreto

De um tempo encantado

(*) misto de aventureiro com viajante

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

REFLEXÕES DE UM PITZAIOLO TEMPORÃO

Comecei a fazer pitza depois dos sessenta quase que por acaso, se acaso de fato existisse.

Tudo começou numa conversa informal com Moacir Kulisz, empresário e velejador, que me forneceu a receita da massa e até hoje, depois de dois anos, não parei de assar a preciosa semolina.

Já passei adiante a receita para amigos e familiares, Mas são raros os que encaram essa artesania de frente, que é trabalhosa e cheia de detalhes. Meus filhos já metem a mão direitinho na massa, promovendo altos festivais entre colegas e amigos.

Me recuso terminantemente a repetir a receita aos mais preguiçosos, que sempre me pedem, mas nunca encaram de frente a questão. Sempre tem alguém que “perdeu” ou “esqueceu” a receita, que eu pacientemente passei por escrito ao suplicante.

Além de vontade e gosto por esse artesanato, parece que um certo talento também se faz necessário. Tem gente esforçada, mas que não consegue esticar ou assar direito uma rodela de massa.

Sua feitura é algo básico para um bom pitzaiolo. São pequenas coisas que a gente vai descobrindo no cotidiano do fazer. E só descobre quem faz.

Eu diria, contrariando algum gourmet, que os temperos são secundários. Confesso que não suporto substituir a mussarela pelo requeijão e desprezo solenemente o milho enlatado. E por favor, não me falem em ervilha.

Alitchi, atum, azeitona preta, manjericão, presunto defumado e tomate seco detêm as preferências da maioria, mas continuo assando, na intimidade do meu forno, a marguerita tradicional, ou um palmito com orégano, coisa mais leve.

Enfim, são preferências e cada um tem a sua.

Também acabou a ortodoxia nas técnicas de assar. Além do forno a lenha, descobrimos. eu e minha turma do Campeche, que se pode assar heresia! – na churrasqueira, bastando apoiar uma pedra de granito sobre duas hastes de ferro, ou sobre uma grelha, sempre mandando lenha por baixo.

Cuidado para não exagerar na lenha. A pedra pode rachar e os ferros fundem a uma certa temperatura, como aconteceu com a grelha favorita do Arnaldão Milman, célebre churrasqueiro do Rio Tavares e mestre das costelinhas na brasa.

Pitza, doce pitza. É muito tentador carregar nas pitzas doces, principalmente depois de provar uma série de salgadinhas.

Admito, como diria o imortal Gildo de Freitas, que ainda estamos vacilantes nas combinações de frutas com marmeladas ou doce de leite. Banana tem que ser muito, mas muito madura mesmo e cozida com antecedência, apenas com uma pitada de sal – para abrir o açúcar natural da fruta – dois cravos e um pouco de água, conforme a clássica dica de Sonia Hirsch.

Uma mistura muito apreciada é acrescentar uma colher de sorvete sobre a pitza de banana e canela em pó. Show de bola.

OS SETE PILARES

A base da pizza são sete ingredientes. Se faltar um deles, certamente será um mau começo pra quem quer se dedicar com ganas ao ofício: alho, azeite de oliva, massa, tomate fresco, queijo mussarela, manjericão e orégano. Pra mim, vinho é o acompanhamento ideal. Sim, você dirá: mas a base não é a clássica “Margherita”, com as cores da bandeira italiana, homenagem de algum esperto pizzaiolo à esposa do Rei Vittorio Emanuele? Sim, direi eu, mas os sete pilares continuam sendo os ingredientes top. O resto ou o que vem depois é com você.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

CANÇÃO DO MEIO DIA

O sol e a canção

Chanson d’amour

Nuvens cinzentas

Ondas verdes

Murmúrio do mar

Na noite dos meus sonhos

Areia fina entre teus joelhos

Canto do mar

Canção de amor na manhã

Brilhando na água clara

Da piscina

E a audácia de ser

Apenas um vento sutil

Insistente a deslizar

No arbusto

Jogo de palavras

Entre as embarcações do mar

Momentos são e então

Alegria, alegria

Surge a melodia do teu cedê

Cantada das cantadas

Cântico dos cânticos

Deste novo dia


DESCENDO ATÉ O MAR DE SAL

Deixamos para trás a intensa luminosidade e a arquitetura branca de Jerusalém e lá fomos nós, um bando de turistas deslumbrados dentro de um ônibus com ar refrigerado – a temperatura diurna em Israel é seca e elevada, em torno de 30 a 35 graus no outono – baixando por uma estrada escarpada, dando voltas e mais voltas, descendo lentamente a íngreme cordilheira montanhosa do planalto da Judéia. A estrada é magnífica, sinalizada com cores rutilantes. A pista é um tapete negro, dá a impressão que a camada asfáltica foi colocada naquela semana.

Ao lado da estrada, acampamentos de beduínos, bedu, no jargão árabe-israelense. Em volta dos acampamentos - cabras, camelos, crianças brincando. Muitas voçorocas, que são barrancos erodidos por súbitas chuvaradas, raras na região, mas muito fortes.

Meia hora depois estamos chegando na região mais profunda do planeta, 400 metros abaixo do nível do mar. Ao longe, um fio d`água de não mais de 20 metros de largura, o rio Jordão, serpenteia pelo relevo avermelhado do vale e desemboca mansamente na água serena do Mar Morto, ou Mar de Sal, Yam HaMélach em hebraico.

A cidade mais próxima é Jericó, onde funciona o milionário cassino que Arafat construiu com dinheiro doado pelos governos da União Européia. Não entraremos em Jericó. Desceremos em direção ao Sul, costeando o Mar Morto. Na outra margem, a uns 15 km, além das montanhas cor de tijolo, está a Jordânia.

Do lado de cá, junto à estrada, nos acompanha outra cadeia de montanhas. Como estamos ao lado destas montanhas, separados delas por algumas centenas de metros, podemos apreciar mais de perto o relevo áspero e terroso, os tons cambiantes de luz provocados pela incidência solar. O avermelhado de um platô muda para o violáceo de um precipício, que se transforma em dourado sanguíneo e na elevação seguinte o tom se modifica para outra nuance entre o cobre, o vermelho e o rosáceo.

A margem do mar vai se alargando e então vemos um bosque de tamareiras e logo a entrada para um hotel, um dos muitos resorts do Mar Morto: massagem de lama, caminhadas, banho de água mineral a 39 graus, repouso e refeição. Mas tudo isso seria depois de subir até Massada, a última fortaleza tomada pelos romanos nas terras do antigo Israel.

Antes do resort o ônibus desvia para uma estrada em direção às montanhas, onde nos aguarda o kibutz de Ein Guédi, o Olho do Cabrito. Ein Guédi tem uma das mais preciosas fontes de água de Israel. Foi numa de suas grutas que o jovem guerreiro Davi se escondeu da perseguição que lhe movia Saul, o rei.

Quem sente a beleza dos 150 salmos que Davi escreveu, mal imagina o quanto ela oculta do talento guerreiro do escritor. Davi dominava todas as armas de guerra da época, a lança, a espada, o sabre e a adaga, não esquecendo da funda que abateu Golias. Nas cavernas de Ein Guédi ele treinou seus guerreiros para as batalhas que consolidariam o reino, e, de quebra derrotariam Saul, seu perseguidor.

Mas na vida pessoal e afetiva, Davi sofreu e fez sofrer muito e boa parte dessa dor está nos salmos. Traiu e mandou para a morte seu melhor comandante, Urias, para ficar com Batsheva (Betsabé), mulher de Urias e mais tarde mãe de Salomão, o rei. Seus filhos lutavam pelo poder, mesmo com o pai reinando. Um deles, Amnon, violentou a irmã, Tamar. O outro filho, Absalão, vingou o incesto matando Amnon. Absalão levantou um exército contra o próprio pai e acabou morto, apesar de Davi não desejar a morte do filho rebelde. Tremendo drama familiar.

Desembarcamos num gigantesco parque de estacionamento onde deveria haver uns 40 ônibus estacionados – sem exagero – e fomos caminhando até a estação do veículo que nos elevaria, por cabo aéreo até o topo da meseta onde está Massada. O veículo, um teleférico -

é tão grande que cabe de uma só vez mais de 50 pessoas e percorre a distância em dois ou três minutos.

E aqui estou eu nesse sítio histórico e mitológico. Ruínas, aridez, a luz solar cegante, a paisagem grandiosa e lá embaixo o azul escuro do Mar Morto a perder de vista, as montanhas violáceas, o céu - de um azul total, nuvem nenhuma – teto absoluto a proteger nossas cabeças. Estou no cenário da ultima resistência contra o exército romano.

Desembarco do teleférico e da ponte de madeira que leva ao platô, repentinamente meus olhos dão de cara com o fundo do abismo. Lá embaixo, a mais de 300 metros em linha vertical, ainda há sinais do acampamento romano. Numa fração de segundos, como o riscar de um raio, o passado se faz presente aqui e agora. O suor gruda a camisa na minha pele. Por dentro estou gelado de pavor.

O cerco, comandado pelo general Silva durou seis anos e só foi possível penetrar na fortaleza depois que os romanos construíram um aterro que lhes permitiu escalar as muralhas. Mas os soldados romanos não encontrariam nenhum judeu vivo. Estavam todos mortos, quase seiscentos cadáveres. O suicídio coletivo foi um recado taxativo: era preferível morrer do que ser escravo de Roma, pois este era o destino dos prisioneiros.

Nos altos de Massada caminha-se em silêncio respeitoso. Alguns conversam à meia-voz e se ouvem apenas as palavras do guia. Sopra uma brisa refrescante, mas a atmosfera é tensa, pesada. Quase dois mil anos depois da tragédia, uma energia insólita ainda permeia nossos passos por entre os escombros das mikvaot (*) ressequidas, onde as crianças e as mulheres de Massada tomaram seu derradeiro banho ritual.

Não me lembro de ter feito nenhum esforço físico extra naquele dia, mas ao descer do teleférico me senti completamente exausto, sem forças. No resort, vou direto para o banho termal. Deito-me numa esteira e durmo quase que imediatamente.

Alguém me acorda meia hora depois e me chama para o refeitório. Não tive ânimo para mais nada. Muitos foram caminhar ao encontro da lama terapêutica do Mar Morto - e a tradicional foto do turista boiando na água lendo jornal - onde a intensa salinidade não permite a submersão.

Fico deitado numa esteira na varanda do resort, espiando Massada no alto à minha esquerda e o mar à direita. No retorno à Jerusalém, já no crepúsculo do dia, meu pensamento continua naquela fortaleza destruída pelos romanos há 1923 anos atrás, enquanto nosso guia nos dá as últimas instruções antes de retornarmos ao hotel. Ao lado do ônibus em movimento, como que nos acompanhando, rente às montanhas da Judéia, uma serena lua cheia nos observa.

(*) piscinas para banho ritual. Singular: mikvah

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

TAMBORES DISTANTES

E então gritávamos

Canções líricas

Poemas épicos

E recitávamos versos

Do Rei Davi

(“beija-me com o beijo

da tua boca

pois mais embriagadores

do que o vinho

são teus amores”)

Mas tudo isso já era

Pois isso tudo

Era por demais conhecido

Aconteceu noutra era

Era quando ouvíamos

O rugido enlouquecido

Das então muito elétricas

Harpas de Hendrix

Arrepiando frementes

Nosso cabelo comprido

E agora

Qual Fênix urgente

Portando garra mortal

Retorna again and again

Nada de Novo cavalgando

No dorso virtual

Nos transformando em reféns

Enclausurados na casca

Do ovo da serpente

E então quando

Alguém me chamou

De saudosista

E quando você me lembrou

Que deixei alguma pista

Dos meus tempos de trotzquista

Ocorreu-me estar

Sempre e cada vez mais

E outra vez

De novo sob o sol

Beijando o beijo

De tua boca

Bebendo o vinho

Dos teus amores

E dançando ao som

De distantes tambores

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A COLONIA CLÁSSICA

A serra gaúcha foi colonizada basicamente por camponeses italianos vindos do Vêneto, Trento e Lombardia. Os primeiros grupos chegaram a partir de 1875. A região não tinha estradas, todo o transporte nos primeiros anos era feito no lombo de animais de carga, através de picadas abertas na mata.

A inauguração da estrada de ferro em 1909 impulsionou a colônia em todos os aspectos. Foi o fim do isolamento e o começo de uma nova era. A Colônia primitiva e isolada começaria então a sedimentar as bases para a pequena indústria, que mais tarde, nos anos 50 e 60 se projetaria para todo o estado e o país: metalurgia metal-mecânica, produção de vinhos e espumantes, indústria moveleira.

Aquele tempo (1909 até fins de 1970) foi o que eu chamo de período clássico da colônia, que me viu nascer e crescer até a adolescência, quando então dela me despedi em 57. Foi a colônia movida a trem de ferro, que só parou de andar no início dos 70, quando arrancaram seus trilhos .

A serra gaúcha nos deu vários clássicos, sim. Na culinária de inverno, o reconfortante brôdo, servido nos dias e noites gelados de maio a setembro.

O brôdo é um caldo de galinha, que se toma acompanhado de muito queijo ralado, pão e carne lessa, que são os pedaços fervidos da galinha, fria e salgada fora da panela. Uma das variações do brôdo é a sopa de capeleti ou de agnolini, pequenas pelotas recheadas de frango ou ricota.

Outro clássico que praticamente desapareceu por falta de matéria prima – a caça - é a passarinhada frita comida com polenta e molho.

E finalmente, mas não em definitivo, o super-clássico galeto com polenta frita e salada de radicci temperada com vinagre e pedacinhos de bacon frito, que na minha infância era chamado de “al mena rosto”, ou frango assado na brasa.

No futebol também tivemos clássicos: O Serrano x Esportivo em Bento, o Guarani x Juventude em Garibaldi, o Serrano x Juventus de Carlos Barbosa e o maior de todos, o Fla x Ju em Caxias, Flamengo x Juventude, que depois virou Ca x Ju.

A era clássica da serra gaúcha acabou juntamente com o fim do transporte ferroviário e o início do asfalto. Começa nos 70 o período da plena indústria e de seus valores agregados. O galeto vira um prato estadual, gaúcho, se incorpora às churrascarias porto-alegrenses e ganha o Brasil e o mundo. A culinária e o artesanato são agregados ao turismo nascente e a renda das famílias aumenta.

Minha geração é uma das últimas que viveu aquele período na serra gaúcha. Sou um sobrevivente da Colônia Clássica e da enchente de 41. Duas características daquela era: não havia asfalto nem televisão. Mas tinha cinema e muitos! Já falei do Trianon e do Rex em Garibaldi, verdadeiros palácios de fina acústica e paredes acolchoadas de veludo?

Não tinha, asfalto, é verdade, mas as estradas da serra que ligavam as cidades eram de macadame, secas no verão e firmes na temporada de chuva, mas nas colônias miúdas, quando chovia,os caminhões, os carros e os táxis entravam no calçamento das cidades espalhando lama no paralelepípedo das ruas, chacoalhando os pneus envoltos nas correntes, que era a única maneira de não ficar atolado em alguma biboca no meio dos vales profundos do rio das Antas.