segunda-feira, 31 de agosto de 2009

TOP MODEL


ERA TÃO MAGRA
MAS TÃO MAGRA
QUE CHEGAVA A SER
TRANSPARENTE
DIÁFANA
VIA-SE O MUNDO
(E A FOME DO MUNDO)
ATRAVÉS DE SEU CORPO










sábado, 29 de agosto de 2009

UM CASAMENTO E DOIS CAVALOS


Meu pai foi o sexto filho de uma prole de nove irmãos. Ainda na escola primária foi excluído das salas de aula, obrigado a trabalhar. Aprendeu a ler mais tarde por conta própria ao mesmo tempo que desenvolvia o aprendizado das quatro operações - tudo mais ou menos de modo autodidata - que muito lhe valeram na vida adulta, quando se tornou, como ele mesmo se denominava, um homem de negócios.

Aos 13 anos saiu da casa paterna para seu primeiro emprego que, por sinal, abominou para o resto da vida. Foi trabalhar como ajudante numa ferraria, emprego ainda sem carteira assinada - na época não existiam as leis trabalhistas instituidas logo em seguida por Getulio - labutando das sete à sete, com meia hora para o almoço.

Pediu demissão no mesmo dia em que recebeu o primeiro salário. Com o dinheiro comprou um cavalo, seu primeiro instrumento de trabalho autônomo. Sobreviveu por mais de dois anos vendendo fumo em corda e bilhete de loteria nas vendinhas de beira de estrada ou nos acampamentos de trabalhadores, que nos anos trinta abriram as estradas de macadame nas colonias da região serrana.

Mais tarde comprou dois cavalos marchadores, "Douradilho" e "Bailongo", referência de seus gostos tangueiros. Nessas andanças, conheceu parte da serra gaúcha, até as margens do Taquari.
Nessa região foi definitivamente atraído pelo comércio de pedras, na época conhecidas como semipreciosas, que eram achadas quase a flor da terra no Vale do Rio Fão, próximo a então vila de Nova Brescia, minha terra natal, distante uns 30 km de Encantado, onde meu pai conheceu minha mãe num baile de ano novo.

A história desse encontro e do posterior casamento tem versões contraditórias.. Uma delas diz que meu pai praticamente impôs a união, cercando a noiva por todos os lados, contrariando a vontade da família dela.

A outra versão conta que a corte do pretendente foi bastante hábil. Já tendo visto a pretendida e com ela trocado olhares, meu pai mandou um emissário com um recado perguntando se poderiam dançar no tal baile de ano novo, posto que minha futura mãe era viúva de um primeiro casamento e essa condição exigia uma formalidade rigorosa para os costumes daquele tempo e lugar.

De culturas e religiões diferentes - ele protestante, ela católica - era quase natural que haveria oposição das famílias. Estavam apaixonados, me disseram vários contemporâneos - e o casamento foi inevitável. Casaram apenas no civil, o que equivalia a um escândalo para a época. As religiões tiveram que esperar.
Foto: Bette Davis e Henry Fonda

terça-feira, 25 de agosto de 2009


TANGO DE LUNAS
(Me voy de lunas)

Estou de luas
Minhas luas
Me voy de lunas

Cães de lua me cercam
Estou no centro das mordidas
Todas impostas
Todas muito bem postas

As luas vem e vão
E logo voltarão
Minhas luas

Me voy de lunas
No verão profundo
Deep summer
Você sussurrou
E depois partiu
Sem dizer adeus
Ouviram-se apenas
Gritos e sussurros
No verão profundo
Verano sureño
Aquele verão perdido
Voando nas asas
De un tango portenho

deep summer,
você gritou
pela vez derradeira
então dei-me conta
os gritos estão sempre
com decibéis a mil
no inconsciente coletivo
na memória coletiva


o velho-novo povo
sobrevive
no girar das mós
en la movida de la luna
minhas luas
estoy de lunas
me voy de lunas

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O QUE EU MAIS GOSTAVA


O que eu mais gostava na primeira infância era visitar minha avó materna, que morava a uns cinco quilômetros da casa de meus pais, em Encantado. Uma vez, causei um grande susto em casa porque decidi ir sozinho e a pé até a casa da Nona sem avisar ninguém. A casa - e também o caminho que conduzia até lá - era literalmente o paraíso para um menino de cinco anos.

De ambos os lados da estrada, imensas plantações de milho acompanhavam o lento trajeto, cintilando à luz do sol, embalada pelo vento suave da manhã.
A casa - ainda está de pé - é uma construção terminada em 1909 - toda em estilo vêneto rural, erguida em dois pisos, com parede de pedra de um metro de largura protegendo a adega do piso térreo, onde meu avô armazenava vinho em tonéis da altura de uma porta.

Nos fundos da casa crescia um pomar imenso com todas as frutas da região, ao lado de um parreiral subindo a encosta do morro. E no meio do pomar, descendo a montanha em direção a casa, um aqueduto desembocava num largo tanque caseiro de lavar roupa, com seu sonoro ruído de ´agua corrente. Do tanque, o fio de água descia para a cozinha e dali para o curral lotado de porcos, galinhas, patos e marrecos.

E quase chegando à margem do riacho, um prado verde se abria ladeado por renques de árvores altas e copadas, abrigando em sua sombra os animais de tração da propriedade.

Nona Maria era o apelido familiar de minha vó materna Maria Fontana Bergamaschi, que o destino ou a falta de água tratada tornou viúva de repente, deixando-a com o encargo de chefiar uma imensa família, com três filhos homens ainda solteiros e mais seis filhas, algumas adolescentes e outras ainda crianças.

Meu avô, Carlos Bergamaschi, morreu de tifo no verão 24 ou 25, no apogeu dos 40 e poucos anos de vida, agricultor já bem sucedido, dono de seu nariz e de sua terra, mas que sucumbiu a uma súbita e mortal febre tifóide, que na época não tinha cura.

Nascido em Gazzuolo, uma aldeia da província de Mantova, no norte da Itália, no ano de 1879, meu avô abrasileirou o nome para Carlos quando aqui chegou, com a idade de 14 anos. Emigrou com a família, saindo do porto de Gênova, na terceira classe de um navio superlotado de camponeses sem terra. Nunca em toda a história da Itália camponesa, jamais um agricultor de Gazzuolo fora dono de sua própria gleba de terra.

Desembarcaram no cáis e Porto Alegre, numa manhã fria de julho de 1893. No ar já se pressentia o cheiro de pólvora da Revolução Federalista que logo iria explodir de norte a sul do país.

Subiram o rio Jacuí, depois o Caí, até Montenegro. Dali escalaram a serra em carroça de boi e montaria de mula até o posto de recepção aos imigrantes na Linha Forqueta, entre Caxias e Farroupilha. Receberam ferramentas e uma escritura de propriedade de 24 alqueires de terra no município de Encantado, mais precisamente no Passo da Linha Lageadinho, a mais ou menos cinco quilômetros da sede municipal.

As primeiras casas, de pau a pique e sapê, fora construidas em madeira recolhida no mato circundante (e bota mato nisso) onde havia animais selvagens de espécies hoje quase desaparecidas. Como proteção, as casas eram cercadas com paliçada, cercas de pequenos troncos enlaçados un nos outros. À noite havia sempre alguém de sentinela, mantendo uma fogueira acesa.

Assim a gente espantava as feras, dizia minha avó, que carregou por toda a vida na lembrança o rugido noturno da onça pintada rondando faminta a casa frágil do Passo do Lageadinho.
Nona Maria faleceu em 1979, com 96 anos de idade.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

ALFABETIZADO NA MARRA

O trem chegando em Carlos Barbosa.

Aprendi a ler antes de entrar para a escola. Meu pai me ensinou as primeiras letras, aliás, exigiu que eu aprendesse a ler, soletrando o cabeçalho do jornal Correio do Povo, da Caldas Junior. Portanto, me lembro como se fosse hoje, eu segurando o jornal nas mãos e seu Arno do meu lado, me ensinando a juntar as letras e o som correspondente na expressão “Correio do Povo”.

Na primeira infância tínhamos rádio em casa. Só meu pai ligava o aparelho para escutar notícias e música. À noite sintonizava as rádios argentinas e uruguaias para ouvir tango. Não me lembro de ter ouvido narração de futebol. Só mais tarde, quando eu já estava no curso primário, mas então já não tínhamos rádio em casa e eu ouvia o do vizinho.

Em Carlos Barbosa foi a primeira vez que me lembro de ter escutado um narrador esportivo. Foi quando escolhi o time para o qual viria a torcer pelo resto da minha vida. Foi uma decisão fruto de um desafio, no meu primeiro dia de aula no Grupo Escolar de Carlos Barbosa, era março de 1951. No recreio, um cara de boné e com um jeito de patrão da área – Domingos Baldasso - me interpelou, perguntando pra que time eu torcia.

Não fazia a menor idéia do time que eu torcia. Não me interessava por futebol, no jornal que, de vez em quando meu pai trazia pra casa, minha preferência ia para os anúncios dos filmes que passavam na Capital, anúncios que eu gostava de recortar e que depois guardava

numa caixa de madeira junto com meus objetos pessoais.

Respondi com outra pergunta ao meu interlocutor: quem era o campeão? O campeão era o Colorado, então eu estratégicamente me declarei colorado a partir daquele momento, numa decisão de ímpeto irreversível e definitivo. Antes daquela decisão não me recordo de jamais ter visto uma fotografia do time colorado. Meu pai, que mais tarde fui saber que era gremista – ignorava solenemente o esporte bretão, como diziam os locutores esportivos.

Ser colorado ou gremista nos dava uma identidade naquelas paragens isoladas da serra gaúcha dos anos 50. Passei a acompanhar a trajetória do meu time escutando os jogos no rádio do vizinho.

domingo, 16 de agosto de 2009

PORQUE EU SOU EXIGENTE

(tributo a Mário Quintana)

Quando eu me for

Para o outro lado

Peço, por favor,

Encarecidamente, gente:

Não me aplaudam

Não batam palmas

Não batam palmas

E principalmente

Não batam palmas

pois de tal sono eterno

Minha alma malcriada

Pode despertar

muito mal-humorada

Que se ouça apenas o canto

De algum passarinho distraído

E o sussurro de um vento repentino

Flanando por entre os ramos do arvoredo

Que não soem instrumentos

Que ninguém cante ou declame

Que cochichem banalidades

Fiquem à vontade

Falem do tempo

E de coisas triviais

Para que meu espírito assustado

Por tal situação mortificante

(mas não menos exigente)

Possa por fim ouvir sossegado

O suave, o sutil

O não repetido frêmito

Da natureza em abandono

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

EUROPA, FRANÇA E GARIBALDI

Paris? não, rua central de Garibaldi - Foto SkyscraperCity

O que mais me faz lembrar da França – onde nunca estive, mas já passei perto – é o maio de 68, que atingiu em cheio minha iniciação política de estudante universitário. Aquele maio ressuscitou as esperanças num mundo melhor – anarquista, por que não? – mas também apagou a imagem libertadora e democrática que eu tinha do presidente Charles de Gaulle, quando nos reduziu a uma única e preconceituosa expressão: chienlit, ou na linguagem dos que não admitem oposição: baderna.

Naquele momento de Gaulle deixou de ser um dos meus heróis da resistência francesa à opressão nazista e passou a representar o que havia de pior na direita mundial. E quem poderia transformar-se em herói naquela França anterior ao horror nazista? Alfred Dreifuss condenado injustamente por traição à França que ele amava e servia como o mais fiel de seus filhos. E Jean Moulin, combatente e organizador da Resistência, cujo triunfo não conseguiu presenciar.

Na minha infância e adolescência, passadas na Serra Gaúcha no início dos anos cinqüenta, a França era presença cotidiana no nome de uma variedade de uva, de casca durinha, a “francesa”, com a qual se fazia um vinho de mesa, simples e delicioso.

Depois, na marca “Georges Aubert”, de vinhos espumantes, produzidos por uma família de vinicultores emigrados da França do pós-guerra, na então pequena cidade de Garibaldi, onde morei até o ano de 1957.

Naquele ano, o paraninfo da minha turma de ginásio foi nada mais, nada menos do que o próprio monsieur Georges Aubert, simpático cidadão francês, que patrocinou meu primeiro porre de champanhe, exatamente no dia da formatura. Éramos provincianos e nos deslumbrávamos com a cortesia e a boa educação daqueles europeus. E como era linda e charmosa aquela França burguesa!

Mas o que seria a França sem Robespierre, sem Marat, sem Danton, ou sem a fúria proletária da Comuna de Paris? Não teríamos história, talvez nem civilização, nem arte, nem literatura, nem cinema. Outras indagações povoariam minha cabeça nos anos seguintes.

O que seria a nossa oprimida adolescência sem as fantasias que nos despertavam os olhares transgressivos de Brigite Bardot? O que saberia eu da contribuição francesa à paz mundial, se não tivesse lido as páginas imortais de “Os Thibault”, a inesquecível trilogia de Roger Martin du Gard? E se meus ouvidos jamais tivessem escutado as vozes inconfundíveis de Edith Piaff e Charles Aznavour ?

Minha lista de símbolos da França perene ainda incluiria muitos outros nomes. Just Fontaine, o maior goleador de todas as Copas. “Jules e Jim”, Magali Noël, Jean Louis Trintignant, Jules Dassin, “Rififi”, Pierre Barouh. E ela, eternamente bela, Caterine Deneuve. E, como disse Ettore Scola, quando terminou de filmar “Casanova e a Revolução” (“La Nuit de Varennes”): basta, fico por aqui.