quarta-feira, 3 de março de 2010

BARBÁRIE A VISTA


Não é de hoje que assistimos quase que diariamente a cenas de barbárie explícita no noticiário televisivo, mostrando a quantas anda a nossa realidade. O Jornal da Tarde, da Globo, na edição de hoje, tenta amenizar entremeando matérias amenas - boa alimentação, cuidados com a pele no pescoço - mas as cenas são por demais indeléveis.

Um ônibus incendiado de propósito por marginais criminosos, lotado de passageiros, o sujeito que dá um tiro na cara do outro porque não quis abrir a janela, só pode ser sintoma de barbárie.

Um dia Rosa Luxemburgo disse que teríamos que escolher, no futuro, entre socialismo e barbárie. O socialismo, por enquanto, está descartado. A outra alternativa, pelo jeito, está batendo na nossa porta.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

VAI ESCREVER, VAGABUNDO

Hugo Carvana, no filme "Vai Trabalhar, Vagabundo"

A difícil missão do jornalista, escritor, memorialista, poeta, seja lá quem for que esteja a batucar num teclado, é escrever. Não dá pra escapar desse destino meio amargo, meio doce. E vem de longe essa coisa de escrever. Parece que estou ouvindo minha mãe me dando adeus e me advertindo premonitoriamente: "e vê se escreve! "

Difícil, sim, porque escrever se confunde com o ato de trabalhar, verbo torturante pra mim, confesso. Vejam a etimologia, vem de tripalium, um instrumento de tortura! E não me digam que vocês não sabiam. Mas enfim, trabalhar era preciso e hoje não, porque estou aposentado. Confesso novamente.

Escrevi minhas primeiras redações no primário, depois no ginásio. Escrever era algo secundário, como os cursos. A coisa ficou importante quando entrei no jornalismo. A batalha do texto jornalístico, objetividade, clareza, imparcialidade, a busca da informação, as fontes. Mas isto foi noutra época. E agora mais ainda.

Hoje muitos de nós não temos mais obrigação profissional de escrever. Mas continuamos, seja por vocação, consciência, diletantismo ou obsessão. Admiro, invejo e tenho orgulho de meus amigos ou conhecidos, escritores, poetas e jornalistas. E por dever de consciência devo admitir: não é inveja boa, é inveja mesmo.

Depois de muito escrever na ativa admito que hoje prefiro mais a leitura. Mas só leitura deixa a porta aberta para certos vicios que tão bem conhecemos e que são a desdita de muitos colegas. Ainda bem que despertei para o universo blogueiro e nele viajo sem parar, me esqueço até da nossa grande e sagrada missão que é teclar. Como não se perder no universo sarcástico de um Renzo Mora, na simplicidade profunda de um Fábio Bruggemann, no engajamento do Nei Duclós, do Sérgio Rubim, de um Marco Vasques, de um César Valente e de tantos nomes talentosos desta ilha do nosso exílio?

Então só me resta recomeçar, refazer o texto, tirar aqui, acrescentar mais adiante. Me animo com esta frase, nunca esquecida e escrita pelo Claudio Levitan, autor de letras inesquecíveis:
Nada mais nos resta a fazer, senão fazer.

P.S.: O título aí de cima foi inspirado por uma conversa com meu velho amigo Martinho Rottmann, a quem reencontrei depois de quarenta e tantos anos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

EU PERDIDO, ENTRE MEU PAI E BRIZOLA




















Dia da posse de Brizola


Em 58 conheci Brizola em pessoa na minha serrana Garibaldi, num comício noturno, nos altos de um café tradicional da cidade, que ainda tinha sotaque da antiga colônia italiana.

Meu pai era do diretório municipal do PTB (do Getúlio, não da Ivete) e insistia a toda hora que eu deveria conhecer "e me apresentar" ao homem.
- Vai e diz: estou contigo, Leonel!

Eu andava pelos 16 anos, estudava num internato em Porto Alegre e na ocasião estava de visita à família nas férias de julho, mas meus interesses ainda não incluiam a política. Além disso, o tom impositivo das decisões do meu pai já começava a me causar uma inquietação constante e um nervosismo que eu mal conseguia conter ou disfarçar.

Era início da noite, um grande foguetório recepcionou a caravana. Brizola desembarca do carro na frente do diretório, todos querem apertar sua mão. Meu pai me arrasta pelo meio da multidão, passa na frente de alguns correligionários mais deslumbrados e me coloca de frente para o homem e num tom da maior intimidade - não faço a menor idéia se ele tinha alguma chegança no líder, pelo menos até então - enlaça a cintura de Leonel Brizola, exclamando: "Leonel, quero te apresentar meu filho mais velho".

Enquanto me apertava a mão com força, Brizola falou rapidamente alguma coisa que não consegui ouvir direito, devido ao vozerio e ao alvoroço da sala apertada e cheia de gente. No momento seguinte uma pequena multidão já arrastava o homem para fora da sala de onde foi direto para uma sacada do segundo piso do prédio.

Durante todo o comício meu pai não arredou pé da sacada, grudado no homem e gritando de vez em quando "apoiado" e "muito bem, Brizola".

Naquela eleição Brizola ganhou com uma vantagem de mais de duzentos mil votos sobre o coronel Walter Peracchi de Barcellos. E meu pai ganhou uma pequena fortuna apostando com alguns amigos, mas adversários políticos. Era jogo a dinheiro, casado e guardado no cofre do ecônomo do clube social da cidade. De um ganhou dando cinquenta mil votos de vantagem. De outros ganho no taco-a-taco. Dessa vez, Seu Arno ganhou lindo. Mas perderia, e muito nos anos seguintes.

Palanques, cátedras e púlpitos sempre fascinaram Seu Arno. Ele mesmo proferia calorosos discursos e arengas por qualquer motivo. Mas, por culpas do destino ou da vida, tinha um marcado sentimento de inferioridade por não ter estudado em colégio ou faculdade.

E projetava tudo isso com muita ênfase para cima de mim, dia após dia, visualizando uma trajetória para seu primogênito, "futuro bacharel", "brilhante orador", quem sabe, talvez, "um nobre causídico", me encurralando mais e mais para o que ele considerava muito justamente uma carreira de valor.

A pressão começou bem cedo. Eu ainda não terminara o primário e já era compelido, cooptado e instigado a "discursar", a "declamar", a me "posicionar como orador" em aniversários, casamentos e todo tipo de evento que reunisse mais de uma dúzia de pessoas.

Sua primeira providência foi comprar um "Manual do Orador", com discursos prontos para qualquer tipo de efeméride. Minha estréia foi no casamento de um primo, eu deveria ter no máximo uns dez, onze anos de idade.

No meio da festa, meu pai interrompe a música e solicita aos convivas uma pausa para uma homenagem aos noivos. Seu filho, "jovem orador", faria um discurso, como já prometido, em homenagem ao casal nubente.

Dito isto, fez-me subir a uma cadeira, de onde proferi - numa entonação cheia de timbres retóricos e gestos previamente marcados e ensaiados no papel que eu decorara horas antes, não sem deixar de sentir um tremendo nervosismo, por medo de esquecer o texto na hora - minha primeira apresentação em público.

Tudo deu certo, as palavras sairam vibrantes - reconheço que tenho certo talento para a coisa - veio uma tempestade de aplausos. Vi os olhos úmidos de meu pai, a boca semi-aberta em êxtase, a cabeça levemente caída para o lado, os braços abertos em atitude de plena satisfação.

Daí para a glória precoce foi um pulo. Fiquei conhecido como "o guri do Arno, aquele que discursa e declama uma barbaridade".

Algum tempo depois, no Grupo Escolar de Carlos Barbosa fui destacado para ser o marchador-pelotão nos desfiles da Semana da Pátria. E ao final das marchas ao som do bumbo e do tarol, subi aos palanques e declamei um soneto patriótico, arrebatando aplausos e cumprimentos da diretora e das professoras da escola.

Mas, para minha surpresa, nesse dia, Seu Arno ficou em casa me esperando. Não compareceu ao evento. Me cobrou um longo relatório, a marcha, a declamação, os aplausos, quem me aplaudiu, quem me cumprimentou. E também comecei a perceber que o temperamento exaltado da alma paterna já possuia, ao lado das eventuais alegrias, a marca de alguma amargura indelével.



Assim foi esse período da minha infância, mais ou menos nesse tom e ritmo

domingo, 4 de outubro de 2009

O renque de eucaliptos.


Tio Alberto que na família era chamado de Berto foi enlouquecendo silenciosa e completamente logo depois do fim da Segunda Guerra, não por causa da dita guerra ou das perseguições aos descendentes de imigrantes, muito comum naquele tempo, mas porque, dizia-se na família, Berto tinha perdido todo o dinheiro na quebradeira dos bancos e isso, talvez, diziam, tinha afetado irremediavelmente sua cabeça.
Passara a guardar o pouco dinheiro economizado na venda das colheitas debaixo do colchão, já que, como se sabia, os bancos não eram de confiança. E então, de uma hora para outra, Berto foi sendo tomado por forte sentimento de desconfiança, de tudo e de todos.
Seu quarto ficava sempre fechado à chave, que ele trazia na guaiaca, um cinto largo de couro com vários compartimentos, onde também guardava moedas, palha e fumo, um coldre e bainha para arma branca. Também era voz corrente na família que a falta de mulheres na vida de Berto seria uma das causas de sua loucura. Mas o tempo e o vento principalmente se encarregariam de negar
essa tese.

No final dos anos 40 a Vila do Lageadinho onde moravam quase todos os parentes de Berto se erguia na margem direita do rio Taquari, que nasce nos Aparados da Serra e desce naquela região de Encantado no sentido norte-sul. Na altura do Lageadinho o vale do rio forma uma grande planície de quase dois quilômetros de várzea, ladeada por montanhas dos dois lados. No vale, nos meses de outubro e novembro, a força do vento canalizado pelos morros balança os extensos milharais plantados logo depois do final do inverno.

Na noite em que Berto teve o grande surto, uma ventania fora do comum sacudiu casas e paióis por longas horas durante a madrugada. De manhã encontraram Berto espumando pela boca, em delírio, disparando palavras sem nexo no escasso dialeto vêneto do vilarejo. Ele estava junto a um comprido renque de mudas de eucalipto que plantara freneticamente desde o início da noite até pouco antes do sol nascer.

O Lageadinho ficou em estado de choque. Onde se viu, plantar eucalipto de noite. Berto plantara uma extensa fileira de mudas na extrema do potreiro que acompanhava a estrada, numa linha reta de quase quinhentos metros.
De bruços ou de barriga para cima, não saiu mais dali. Soltava um uivo agudo e praguejava contra Deus, a Virgem Maria e a Igreja. Primeiro chamaram o padre, que preferiu rezar à distância daquela alma danada. Sem conseguir resultados imediatos, o padre decidiu voltar à cidade, de onde retornou em seguida com um médico, um enfermeiro, uma ambulância e quatro soldados da Brigada. A chegada da polícia e do aparato médico trouxe Berto de volta à realidade.
Instintivamente puxou do facão, correndo para o descampado do potreiro, brandindo a lâmina em defesa. Foi cercado, laçado como um boi brabo, levado de arrasto e empurrado com violência para dentro da ambulância.

Berto foi levado para Porto Alegre onde foi internado no Hospício do Partenon. Lá ficou por mais de três meses. Um dia fugiu, atravessou a cidade a pé, de madrugada. Vadeou a nado os rios Gravataí, Sinos e Caí, sempre caminhando de noite e dormindo de dia no mato, escondido da polícia e dos enfermeiros do hospício, que ele imaginava em sua perseguição.
Depois de vagar dias e noites pelos campos da Depressão Central , Berto reencontrou o Vale do Taquari, sempre guiado pela vazante do Jacuí.

Chegou no Lageadinho depois de 150 quilômetros de caminhada, morto de fome, os pés em carne viva. Parecia um bicho envolto em trapos. Temerosa, a família não permitiu que dormisse na casa. Arrumaram um quartinho no paiol de milho e láficou Berto.

Raramente saia. Comia a comida e trocava a roupa que as irmãs traziam, mas não freqüentou mais a casa da família. Nunca mais foi à missa nem à bodega do vilarejo, mas ajudava na época de plantio e colheita. Criou fobia de polícia. Bastava que dissessem, mesmo de brincadeira, olha a polícia que ele saía rápido em direção ao paiol.

O tempo foi passando e duas décadas mais tarde a estreita fileira de mudinhas de eucalipto, plantada por Berto na noite em que enlouqueceu - transformou-se numa imponente muralha de troncos com atévinte e cinco metros de altura. Eram quase trezentas árvores enfileiradas de uma ponta a outra da cerca.
Nas tempestades, enquanto o vento ondulava os galhos mais altos, Berto perambulava por entre os troncos, admirando lá de baixo a copada revolta das árvores.
Pelo resto de seus dias Berto passou vigiando quase que diariamente a fileira de troncos, matutando em silêncio e observando a direção dos ventos.

Berto e sua loucura tranqüila passaram a fazer parte dos costumes e hábitos do Lageadinho, como a festa do padroeiro, as enchentes e as colheitas. O tédio, a indiferença e o pouco caso das pessoas nunca deram importância ao plantio do eucalipto, gesto que ficou conhecido apenas como mais uma extravagância daquele maluco solitário.

Berto morreu num dia qualquer dos anos 70. Sua parte na propriedade da família foi dividida entre os irmãos e seus poucos pertences doados à capela da vila. De Berto mesmo, a única lembrança que ficou foi o renque de eucalipto.

Alguns anos depois, quando a prefeitura do município mandou asfaltar a estrada do Lageadinho, o renque inteiro foi posto abaixo. Todos os eucaliptos foram cortados. Ficaram apenas as toras decepadas a menos de 50 centímetros do chão


Os dias se passaram e aos poucos um sentimento de estranheza foi tomando conta das pessoas. A paisagem era outra. Por mais que ignorassem era evidente que alguma coisa ali fazia falta. Uma muda e perturbadora sensação passou a tomar conta das pessoas, como se o corte do renque tivesse contrariado algum desígnio secreto.

A confirmação do pressentimento veio na primeira ventania daquele mesmo ano. Sem a defesa do quebra-vento natural formado pelos troncos e galhos dos eucaliptos, os ventos arrasaram metade da vila, derrubando paredes, destelhando casas e pondo abaixo árvores isoladas, arrastando gado e cercas.
No dia seguinte Lageadinho parecia saída de um terremoto ou de um incompreensível e inexplicável desastre. Era a primeira vez em mais de oitenta anos de vida que o lugar sofria uma catástrofe daquele porte, muito pior que a enchente de 41 que cobriu de água toda a várzea.

E então para o povo do Lageadinho ficou claro o gesto de Berto, quando, naquela longínqua madrugada de depois da guerra ele decidira plantar o renque de eucaliptos.
Berto intuira, na sua loucura, que o renque seria uma defesa para a vila, uma barreira contra os ventos. E guardara sua intenção em silêncio, como se ninguém mais do que ele merecesse a dádiva e a dimensão daquele ato, sóagora completamente entendido e revelado à sua gente.

Nos anos seguintes as toras decepadas brotaram novamente e as árvores foram renascendo. O renque de eucaliptos se refez e está de pé até hoje.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pela Via Maris atravessando o Armaggedon

Tiberíades, de manhã

Há dois mil anos a Via Maris partia de Cesaréia, na beira do mar, subia a encosta da planície de Shefelá, deixando à esquerda a meseta do Carmelo, nos contrafortes do Vale de Jezreel, cortando solenemente o Armagedon, ou Megguido, uma planície devastada pelo sol, onde hoje, depois que os israelenses drenaram a área, crescem lavouras de trigo, centeio e girassol.

Dali a estrada toma o rumo das colinas da Galiléia, costeando o Lago Tiberíades, passando ao lado dos Picos de Hittin, onde Saladino, aliás Salah-Ha-Din, derrotou definitivamente os cruzados. De Hittin, a rodovia atravessa as montanhas do Golan , entra na Síria e vai até Damasco, completando a ligação entre o Oriente Profundo e o Mediterrâneo.

Ao longo da estrada atual, a cada quilômetro emerge da terra nua e crestada a tubulação de água que atravessa Israel de norte a sul. Essa água sai do Lago de Tiberíades, aquele mesmo onde o apóstolo Pedro, aliás Simão Pedro, pescava - e vai sendo distribuída para todos os rincões do país, em tubulações cada vez menores. Quando a água chega no pé da planta, é controlada por um sistema de relé, que desliga quando chove. Quando não chove, goteja dia e noite, mantendo tudo verde, desde as alfaces da horta do kibutz até o gramado dos hotéis de turismo praiano em Tel Aviv.

Atravessamos velozmente as lavouras sulcadas do Vale do Armaguédon e eu me pergunto se não haveria um lugar melhor para acontecer a decantada batalha final, assinalada pelas profecias para ocorrer nesse mesmo vale no final dos tempos. Por enquanto, apenas um ou outro trator agrícola arrasta-se pachorrento, preparando o solo para a próxima safra. Pelo menos aqui, neste vale pretensamente apocalíptico, os arados insistem em substituir a espada.

Continuando pela Via Maris, a Estrada do Mar, logo nos deparamos com a riqueza milenar do Oriente, a oliveira. Centenas, milhares de oliveiras vão cobrindo de verde as encostas. De repente, no meio dos olivais, um posto de gasolina ou uma agência bancária surpreendem os visitantes. No período romano a Via Maris era totalmente calçada com pedras e só terminava em Damasco, a uns 90 km adiante.

A primeira parada do roteiro é Nazaré, administrada pela Autoridade Palestina. Nas cidades árabes as casas não tem telhado. O teto serve de cisterna para colher a eventual água da chuva. Nazaré deve ter uns 40 mil habitantes, vive do turismo, a parte central está tomada pelo comércio de suvenir. Faz um calor quase insuportável, as ruas não tem uma sombra, não há uma árvore onde alguém possa proteger-se do sol incandescente da Galiléia.

Não consigo ficar um instante sem a proteção dos óculos escuros. Bebo água mineral a cada 10 minutos. Depois de uma rápida caminhada decido retornar ao conforto do ar condicionado do ônibus. Charlie, o guia, retorna com o resto da turma,

e ao me ver prostrado na poltrona, grita dizendo que eu estou pronto para passar um dia no deserto!

Uma hora depois, de volta à Via Maris, avistamos ao longe o azul do Mar de Tiberíades - Kinéret em hebraico, Tiberíades é a nomenclatura grega da época quando o uso dessa língua era universal e Roma e Atenas e o império estavam nas mãos de Tibério.

Aqui também os morros estão sempre cobertos pelas oliveiras. O ônibus vai descendo em direção a Cafarnaum (Kfar Nahum), a Aldeia de Naum, nossa primeira parada junto às águas tranqüilas desse lago histórico e bíblico.

De onde estamos não se vê areia nem praia, a água bate diretamente no penhasco. Na rocha é bem visível a marca do nível da água, dois metros mais baixo, devido ao excessivo consumo dos últimos anos. Me diz o Charlie que a conta de água em Israel é três a quatro vezes mais alta do que a taxa de eletricidade, o que é bastante compreensível, neste país onde a água não cai do céu. E quando cai é recolhida e conservada em reservatórios e cisternas.

Novo desfile de ruínas históricas em Cafarnaum: sinagogas milenares, destruídas por seguidas guerras. Templos cristãos com inscrições em grego antigo. Restos de tumbas com a data precisa do nascimento e morte de seus ocupantes.

De Cafarnaum à cidade de Tiberíades, há uma profusão de arbustos floridos nos dois lados da estrada, dando um aspecto ajardinado à rodovia. A cidade está comprimida entre a montanha e o mar de água doce. Casas magníficas foram construídas em terraços em toda a extensão da montanha circundante. E novamente a arquitetura absolutamente branca das cidades israelenses domina a paisagem.

Depois de visitar uma loja de diamantes lapidados, seguimos em direção ao sul do Kinerét, onde o Jordão retoma seu leito rumo ao Mar Morto. As margens desse estreito curso de água são protegidas por uma densa e alta mata ciliar. Dessa forma a água do Jordão está sempre fria, devido ao sombreado do arvoredo que a circunda nas duas margens.

O Jordão é o paradeiro de milhares de turistas evangélicos que ali vem renovar o batismo em suas águas. Nessas “estações” de batismo há naturalmente um comércio intenso de suvenir. Nos restaurantes, o prato tradicional é o peixe de São Pedro, uma carpa que é pescada em abundância no Tiberíades. É de fato muito saborosa, frita ou assada.

De repente uma chicotada sonora estilhaça nossos ouvidos. É um jato da força aérea israelense patrulhando a área. Todos olham para o céu, mas não se vê nada. Quando o estampido nos atinge a aeronave já passou. Voltamos à nossa carpa frita, comodamente sentados numa mesa de varanda do restaurante à beira-mar.

Fiz camaradagem com um jovem casal de engenheiros italianos. São de Roma e claro, falam italiano o tempo todo e comigo arranham o inglês. Lá pelas tantas acabei confessando minha origem peninsular pelo lado materno. Me arrependi de ter revelado esse detalhe, porque os dois passaram a falar só italiano comigo. Mas foram uma boa companhia durante o tempo que estivemos juntos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

DIÁSPORA DE MUITAS MORADAS


Com exceção de minha mãe - nascida e criada no Passo do Lageadinho, em Encantado, endereço cuja lembrança a deixava tomada por imensa nostalgia - pertencer a alguma querência nunca fez sentido para mim, meus irmãos ou meu pai.

Quando me perguntavam de onde eu era, sentia um certo constrangimento e, no mais das vezes, até conseguir explicar que tinha nascido em tal lugar mas que já morara em quatro ou cinco outros lugares diferentes, a conversa já tinha perdido a graça.

Meu pai nasceu no interior de Montenegro, no distrito de Brochier. Detalhe: um incêndio teria destruido o cartório do lugar e assim seu Arno nunca conseguiu retirar uma segunda via da certidão de nascimento. Mas identidade e documento nunca lhe faltaram.

Desde muito jovem, treze ou catorze anos, o ainda adolescente Arno Holderbaum foi o que chamamos hoje de livre e independente. E com condução própria. A cavalo, percorreu boa parte da Serra Gaúcha, que nos anos trinta era uma teia formada por centenas de vilas e colonias interligadas por um emaranhado de picadas e estradas precárias, um desafio épico para os raros motoristas de então.

Seu Arno só dispensou o cavalo quando melhorou de vida e casou, indo morar na cidade de Encantado, numa casa comprada com o dinheiro ganho no negócio das pedras semipreciosas, que ele já então industrializava numa oficina de lapidação, instalada naquela cidade.

Desse momento minha mãe me contou a última lembrança de Bailongo, o alazão que me carregou quando eu ainda usava fraldas.

Eu já era bem grandinho e minha mãe, católica, queria me batizar contra a vontade do marido - que se dizia protestante e com uma postura acentuadamente anticlerical. Acontece que o padre do lugar nega-se a me batizar, por tomar conhecimento de que meu pai, além de não ser católico, tinha se recusado a casar em cerimônia religiosa.

Dá-se que seu Arno e o padre encontram-se por acaso, numa das estradas, ambos a cavalo. O padre, mal cumprimenta, vai direto ao assunto, procurando se explicar e defendendo, naquele caso, as posições e as normas da Igreja.

Leigo, mas conhecedor de alguns fundamentos republicanos, seu Arno respondeu na bucha que filho dele "não precisava de batismo" e que ele dispensava toda e qualquer religião, principalmente aquela que obrigava um homem "a andar vestido de saia". Desnecessário dizer que os padres, naquele tempo, ainda usavam batina.

Daí para o desentendimento aberto foi uma faísca. O padre, ofendido com a audácia daquele forasteiro, também parte para a agressão verbal.

Outros passantes param para assistir à discussão e, diz minha mãe que lá pelas tantas, meu pai não se contém, puxa do chicote, joga o braço para trás, esticando o látego ao máximo e bate com toda força no lombo do cavalo do padre, fazendo o animal disparar. O padre cai literalmente do cavalo, sendo logo socorrido e levado para a cidade. É possivel que essa tenha sido a causa de mais uma mudança de lugar na vida da família de Arno Holderbaum. Mas ninguém até hoje me confirmou.

domingo, 6 de setembro de 2009

TREM DA INFÂNCIA


Fiz algumas viagens de trem, inesquecíveis. A primeira delas foi no verão de 53, nas férias escolares, quando conheci Porto Alegre pela primeira vez. Eu tinha passado no exame de admissão, que era uma espécie de vestibular para o ginásio, quando ainda faltava um ano para completar o primário, ou seja, ao final do quarto ano primário, entrei direto no curso ginasial do Colégio Santo Antonio em Garibaldi, feito que encheu de orgulho meu pai e inchou meu ego a mais não poder.
Como incentivo ao meu esforço e também para poder custear meus estudos, meu pai decidiu pleitear uma bolsa na Secretaria de Educação da Capital. Saímos de tarde, no "Passageiro", como chamávamos o trem que fazia a linha Porto Alegre-Caxias do Sul.
Nos primeiros 60 quilômetros o comboio desceu gemendo entre os cortes dos morros, chiando os freios nos declives.
Quando terminou a serra e de repente chegamos na planície, já quase em Montenegro, a paisagem vai ficando suave e a máquina acelera pelo vale plano do rio Caí. Vem então muitas pontes metálicas, com suas treliças quadriculadas cortando velozes minha retina, como um rolo de filme rodando no projetor.
A partir de São Leopoldo, já noite alta, um mar de luzes cada vez maior e mais intenso seguia junto com a ferrovia. O trem, a toda máquina, acompanhava a estrada asfaltada - novidade para mim - coalhada de automóveis, caminhões e ônibus, e já não parava mais nas pequenas estações desativadas. Éramos apenas alguns passageiros no nosso vagão nos derradeiros quilômetros antes de chegar na parada final.
E foi um pouco antes de chegar na estação de Navegantes que eu tive uma das mais belas visões noturnas do final da minha infância. O Grande Pássaro Metálico pousado no hangar iluminado do Aeroporto Salgado Filho: um gordo, imenso e magnífico DC-3, manobrando lentamente pela pista iluminada na noite intensa daquele iesquecível verão de 1953, se despedindo dos meus doze anos.