domingo, 16 de agosto de 2009

PORQUE EU SOU EXIGENTE

(tributo a Mário Quintana)

Quando eu me for

Para o outro lado

Peço, por favor,

Encarecidamente, gente:

Não me aplaudam

Não batam palmas

Não batam palmas

E principalmente

Não batam palmas

pois de tal sono eterno

Minha alma malcriada

Pode despertar

muito mal-humorada

Que se ouça apenas o canto

De algum passarinho distraído

E o sussurro de um vento repentino

Flanando por entre os ramos do arvoredo

Que não soem instrumentos

Que ninguém cante ou declame

Que cochichem banalidades

Fiquem à vontade

Falem do tempo

E de coisas triviais

Para que meu espírito assustado

Por tal situação mortificante

(mas não menos exigente)

Possa por fim ouvir sossegado

O suave, o sutil

O não repetido frêmito

Da natureza em abandono

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

EUROPA, FRANÇA E GARIBALDI

Paris? não, rua central de Garibaldi - Foto SkyscraperCity

O que mais me faz lembrar da França – onde nunca estive, mas já passei perto – é o maio de 68, que atingiu em cheio minha iniciação política de estudante universitário. Aquele maio ressuscitou as esperanças num mundo melhor – anarquista, por que não? – mas também apagou a imagem libertadora e democrática que eu tinha do presidente Charles de Gaulle, quando nos reduziu a uma única e preconceituosa expressão: chienlit, ou na linguagem dos que não admitem oposição: baderna.

Naquele momento de Gaulle deixou de ser um dos meus heróis da resistência francesa à opressão nazista e passou a representar o que havia de pior na direita mundial. E quem poderia transformar-se em herói naquela França anterior ao horror nazista? Alfred Dreifuss condenado injustamente por traição à França que ele amava e servia como o mais fiel de seus filhos. E Jean Moulin, combatente e organizador da Resistência, cujo triunfo não conseguiu presenciar.

Na minha infância e adolescência, passadas na Serra Gaúcha no início dos anos cinqüenta, a França era presença cotidiana no nome de uma variedade de uva, de casca durinha, a “francesa”, com a qual se fazia um vinho de mesa, simples e delicioso.

Depois, na marca “Georges Aubert”, de vinhos espumantes, produzidos por uma família de vinicultores emigrados da França do pós-guerra, na então pequena cidade de Garibaldi, onde morei até o ano de 1957.

Naquele ano, o paraninfo da minha turma de ginásio foi nada mais, nada menos do que o próprio monsieur Georges Aubert, simpático cidadão francês, que patrocinou meu primeiro porre de champanhe, exatamente no dia da formatura. Éramos provincianos e nos deslumbrávamos com a cortesia e a boa educação daqueles europeus. E como era linda e charmosa aquela França burguesa!

Mas o que seria a França sem Robespierre, sem Marat, sem Danton, ou sem a fúria proletária da Comuna de Paris? Não teríamos história, talvez nem civilização, nem arte, nem literatura, nem cinema. Outras indagações povoariam minha cabeça nos anos seguintes.

O que seria a nossa oprimida adolescência sem as fantasias que nos despertavam os olhares transgressivos de Brigite Bardot? O que saberia eu da contribuição francesa à paz mundial, se não tivesse lido as páginas imortais de “Os Thibault”, a inesquecível trilogia de Roger Martin du Gard? E se meus ouvidos jamais tivessem escutado as vozes inconfundíveis de Edith Piaff e Charles Aznavour ?

Minha lista de símbolos da França perene ainda incluiria muitos outros nomes. Just Fontaine, o maior goleador de todas as Copas. “Jules e Jim”, Magali Noël, Jean Louis Trintignant, Jules Dassin, “Rififi”, Pierre Barouh. E ela, eternamente bela, Caterine Deneuve. E, como disse Ettore Scola, quando terminou de filmar “Casanova e a Revolução” (“La Nuit de Varennes”): basta, fico por aqui.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ANGELA ALICE E O TREM HÚNGARO

Silvana Mangano, em "Arroz Amargo"

Angela Alice foi minha primeira namorada da infância. Morava ao lado do velho cinema da pequena villa de Carlos Barbosa que era então um aglomerado de casarões na rua central e algumas dezenas de casas modesta s no entorno. Ao longodo então segundo distrito de Garibaldi corriam os trilhos da estrada de ferro, atravessando e dividindo o povoado ao meio.

O chefe da estação era o seu Noveli, pai de Angela.

Tudo girava na chegada do trem, que vinha de Porto Alegre, subindo a serra. Ouvia-se o apito na Ponte Seca, entre onze e onze e quinze da manhã. Aos poucos a estação se enchia de gente. A máquina entrava na gare resfolegando fumaça, seu Noveli aguardava na plataforma com o protocolo estendido preso a um pequeno círculo de arame no alto da mão, o maquininista com o corpo para fora da janela pegava o papelucho ar.

Ritual diário de chefe de estação, como também era o toque no sino, anunciando a parada do comboio. Enquanto os passageiros desciam e subiam do trem, eu oferecia pastéis e salgadinhos, que trazia numa cesta presa ao pescoço. Foi meu primeiro trabalho remunerado, que não durou mais de um mês. Não fui um bom vendedor. Comia muitos pastéis, que eram descontados na féria do dia.

Em "Amarcord" do Fellini, o povo de Rímini tem um deslumbramento quando o "Rex", o grande transatlântico, "orgulho do regime" , passaria pela costa do balneário. São cenas patéticas. Nós, em Barbosa, também tivemos esse tipo de êxtase, só que de orgulho ferroviário quando, nos ultimos anos da década de 50, a cidade recebeu a passagem do célebre Trem Húngaro, um luxo para aquela época. Vimos o monstro chegar e parar na estação, conhecemos por dentro e por fora, mas eu, particularmente, nunca viajei nele.


No velho cinema, um casarão de madeira, vi meus primeiros filmes coloridos: "Ali Babá e os quarenta ladrões", com Toni Curtiss e Janet Leigh. E também meu primeiro filme proibido, "Arrroz Amargo", com a estonteante Silvano Mangano, mostrando as pernas com o vestido preso na cintura, tremendo momento erótico do filme.

Meu romance com Angela Alice, absolutamente platônico nos nossos 9 ou dez anos de idade - deve ter sido por volta de 1951 ou 52 - teve seu climax na sessão em que vimos "Amanhã será tarde demais". Angela e sua mãe - senhora de portentosa gargalhada, todo cinema sabia quando ela estava na sala se a fita era comédia - sentaram-se na minha fren-
te assim que começara a sessão.

Agarrei suavemente os cabelos de Angela por alguns segundos. Foi a primeira vez que toquei nela. A segunda e última foi quando a família dela se mudou para Santa Maria. Nos despedimos na estação com um aperto de mão. Nos correspondemos por carta por algum tempo e depois perdi o contato.

O cinema de Barbosa não tinha nome, mas ninguém se importava. Bem mais interessante que o nome era a sirene que soava tres vezes antes de iniciar a sessão. Eram tres longos uivos espaçados por cinco minutos entre cada um e que alcançavam até os mais distante casebres da então vila de Carlos Barbosa.

Um pouco antes de nos mudarmos, eu e Angela Alice descobrimos um depósito de livros ou o que restara de uma antiga biblioteca, nos fundos do casarão que abrigava o cinema.
Uma descoberta que nos tirou o fôlego, porque, além dos livros, seria nosso esconderijo secreto, onde pod[iamos conversar e dividir nossa solidão pré-adolescente.

Quando retornei a Carlos Barbosa, mais de cinquenta anos depois, nada mais restara do cinema, nem da casa onde minha familia morava. A estação ferroviária hoje é um centro cultural. E dentro dela funciona o cinema de arte da cidade, certamente bem mais organizado e moderno, como toda Barbosa é hoje em dia. Uma cidade moderna, rica e ao mesmo tempo pacata e ordeira, orgulho de seus habitantes e que encanta quem a conhece pela primeira vez. Ou a revê depois de cinco décadas.


N. da R.: A foto de Silvana Mangano é uma gentileza do Diário da Fonte (www.outubro.blogspot.com), um achado precioso do jornalista e escritor Nei Duclós, incentivador número um deste espaço, inaugurando o visual deste meu blog.





RIO TAQUARI




(para minha mãe e meus tios maternos)



Rio Taquari das Antas


Que estranho e remoto destino


Corre em teu leito desfeito


Por venenos


E meus banhos de menino



Rio Taquari


Serpente silenciosa e líquida


Descendo a Serra dos Aparados


Indiferente ao progresso


De Lajeado e Estrela


Onde já foste selvagem e bruto


Ainda teimas com tuas barrancas


Abrigando galhos e sementes


E velhos troncos errantes



Ah, antigo e doce Taquari das Antas


Por Muçum e Encantado


Passando vagaroso por Roca


E o Passo do Corvo


Nada devolverá a fúria decidida


Das tuas súbitas enchentes


Nem a limpidez revolta


De certas correntezas de verão



Rio Taquari


Que nasces e morres mil vezes


Na memória dos velhos colonos


Cantar-te-ei uma vez mais


Antes que chegue a noite distante


Em que só restará de ti


A areia fina de teu fundo


Refletindo o eterno brilho das estrelas

Foto: o rio, entre Muçum e Encantado




segunda-feira, 10 de agosto de 2009

POEMA INFANTILPARA ISABELA WAINSTEIN MILLMANN

Isabela, além de bela

Se transforma por tabela

Em muitas Isabelas

Todo mês tem nova Isabela

Que além de bela

Fala isabelês sem sotaque

Mas Isabela tem mais uma

Que também é Isablues

Canto que cura nossa alma

E assim prossegue

A magia cotidiana de Isabela

De repente Isabala

Tão doce nesse inverno

Feito o sustento

Que nos concede o Eterno

E tem também Isabola

Que deita e rola

Redonda e alegre

No playground da fantasia

E assim a cada dia

Surge outra Isabela

Cada vez mais bela

Mudando a tabela

Numa eterna mutação

Trazendo mais esperança

Revivendo nossa infância

E aquecendo os corações

sábado, 8 de agosto de 2009

PAI AVENTURANTE(*)

(para meu pai Arno Holderbaum)

Meu pai viajou de menino

Palmilhando infinito

Deserto-pampa solito

Altíssima serra

Onde a terra

Era companheira

De antiga capa de chuva

Cortada por adaga

E vento

Nem patrão nem carteira

Nunca teve

Identidade alguma

Sina de gente

Vertente

Estancada menina

Seu lar primeiro

Foi relento parceiro

Trotando sonâmbulo

No perau das estrelas

Passou sua vida-minuto

Varando os sete cantos

De léguas e canhadas

Em lombo de zaino e malhado

Casaco e chapéu surrado

Cavaleiro secreto

De um tempo encantado

(*) misto de aventureiro com viajante

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

REFLEXÕES DE UM PITZAIOLO TEMPORÃO

Comecei a fazer pitza depois dos sessenta quase que por acaso, se acaso de fato existisse.

Tudo começou numa conversa informal com Moacir Kulisz, empresário e velejador, que me forneceu a receita da massa e até hoje, depois de dois anos, não parei de assar a preciosa semolina.

Já passei adiante a receita para amigos e familiares, Mas são raros os que encaram essa artesania de frente, que é trabalhosa e cheia de detalhes. Meus filhos já metem a mão direitinho na massa, promovendo altos festivais entre colegas e amigos.

Me recuso terminantemente a repetir a receita aos mais preguiçosos, que sempre me pedem, mas nunca encaram de frente a questão. Sempre tem alguém que “perdeu” ou “esqueceu” a receita, que eu pacientemente passei por escrito ao suplicante.

Além de vontade e gosto por esse artesanato, parece que um certo talento também se faz necessário. Tem gente esforçada, mas que não consegue esticar ou assar direito uma rodela de massa.

Sua feitura é algo básico para um bom pitzaiolo. São pequenas coisas que a gente vai descobrindo no cotidiano do fazer. E só descobre quem faz.

Eu diria, contrariando algum gourmet, que os temperos são secundários. Confesso que não suporto substituir a mussarela pelo requeijão e desprezo solenemente o milho enlatado. E por favor, não me falem em ervilha.

Alitchi, atum, azeitona preta, manjericão, presunto defumado e tomate seco detêm as preferências da maioria, mas continuo assando, na intimidade do meu forno, a marguerita tradicional, ou um palmito com orégano, coisa mais leve.

Enfim, são preferências e cada um tem a sua.

Também acabou a ortodoxia nas técnicas de assar. Além do forno a lenha, descobrimos. eu e minha turma do Campeche, que se pode assar – heresia! – na churrasqueira, bastando apoiar uma pedra de granito sobre duas hastes de ferro, ou sobre uma grelha, sempre mandando lenha por baixo.

Cuidado para não exagerar na lenha. A pedra pode rachar e os ferros fundem a uma certa temperatura, como aconteceu com a grelha favorita do Arnaldão Milman, célebre churrasqueiro do Rio Tavares e mestre das costelinhas na brasa.

Pitza, doce pitza. É muito tentador carregar nas pitzas doces, principalmente depois de provar uma série de salgadinhas.

Admito, como diria o imortal Gildo de Freitas, que ainda estamos vacilantes nas combinações de frutas com marmeladas ou doce de leite. Banana tem que ser muito, mas muito madura mesmo e cozida com antecedência, apenas com uma pitada de sal – para abrir o açúcar natural da fruta – dois cravos e um pouco de água, conforme a clássica dica de Sonia Hirsch.

Uma mistura muito apreciada é acrescentar uma colher de sorvete sobre a pitza de banana e canela em pó. Show de bola.

OS SETE PILARES

A base da pizza são sete ingredientes. Se faltar um deles, certamente será um mau começo pra quem quer se dedicar com ganas ao ofício: alho, azeite de oliva, massa, tomate fresco, queijo mussarela, manjericão e orégano. Pra mim, vinho é o acompanhamento ideal. Sim, você dirá: mas a base não é a clássica “Margherita”, com as cores da bandeira italiana, homenagem de algum esperto pizzaiolo à esposa do Rei Vittorio Emanuele? Sim, direi eu, mas os sete pilares continuam sendo os ingredientes top. O resto ou o que vem depois é com você.