quinta-feira, 6 de agosto de 2009

CANÇÃO DO MEIO DIA

O sol e a canção

Chanson d’amour

Nuvens cinzentas

Ondas verdes

Murmúrio do mar

Na noite dos meus sonhos

Areia fina entre teus joelhos

Canto do mar

Canção de amor na manhã

Brilhando na água clara

Da piscina

E a audácia de ser

Apenas um vento sutil

Insistente a deslizar

No arbusto

Jogo de palavras

Entre as embarcações do mar

Momentos são e então

Alegria, alegria

Surge a melodia do teu cedê

Cantada das cantadas

Cântico dos cânticos

Deste novo dia


DESCENDO ATÉ O MAR DE SAL

Deixamos para trás a intensa luminosidade e a arquitetura branca de Jerusalém e lá fomos nós, um bando de turistas deslumbrados dentro de um ônibus com ar refrigerado – a temperatura diurna em Israel é seca e elevada, em torno de 30 a 35 graus no outono – baixando por uma estrada escarpada, dando voltas e mais voltas, descendo lentamente a íngreme cordilheira montanhosa do planalto da Judéia. A estrada é magnífica, sinalizada com cores rutilantes. A pista é um tapete negro, dá a impressão que a camada asfáltica foi colocada naquela semana.

Ao lado da estrada, acampamentos de beduínos, bedu, no jargão árabe-israelense. Em volta dos acampamentos - cabras, camelos, crianças brincando. Muitas voçorocas, que são barrancos erodidos por súbitas chuvaradas, raras na região, mas muito fortes.

Meia hora depois estamos chegando na região mais profunda do planeta, 400 metros abaixo do nível do mar. Ao longe, um fio d`água de não mais de 20 metros de largura, o rio Jordão, serpenteia pelo relevo avermelhado do vale e desemboca mansamente na água serena do Mar Morto, ou Mar de Sal, Yam HaMélach em hebraico.

A cidade mais próxima é Jericó, onde funciona o milionário cassino que Arafat construiu com dinheiro doado pelos governos da União Européia. Não entraremos em Jericó. Desceremos em direção ao Sul, costeando o Mar Morto. Na outra margem, a uns 15 km, além das montanhas cor de tijolo, está a Jordânia.

Do lado de cá, junto à estrada, nos acompanha outra cadeia de montanhas. Como estamos ao lado destas montanhas, separados delas por algumas centenas de metros, podemos apreciar mais de perto o relevo áspero e terroso, os tons cambiantes de luz provocados pela incidência solar. O avermelhado de um platô muda para o violáceo de um precipício, que se transforma em dourado sanguíneo e na elevação seguinte o tom se modifica para outra nuance entre o cobre, o vermelho e o rosáceo.

A margem do mar vai se alargando e então vemos um bosque de tamareiras e logo a entrada para um hotel, um dos muitos resorts do Mar Morto: massagem de lama, caminhadas, banho de água mineral a 39 graus, repouso e refeição. Mas tudo isso seria depois de subir até Massada, a última fortaleza tomada pelos romanos nas terras do antigo Israel.

Antes do resort o ônibus desvia para uma estrada em direção às montanhas, onde nos aguarda o kibutz de Ein Guédi, o Olho do Cabrito. Ein Guédi tem uma das mais preciosas fontes de água de Israel. Foi numa de suas grutas que o jovem guerreiro Davi se escondeu da perseguição que lhe movia Saul, o rei.

Quem sente a beleza dos 150 salmos que Davi escreveu, mal imagina o quanto ela oculta do talento guerreiro do escritor. Davi dominava todas as armas de guerra da época, a lança, a espada, o sabre e a adaga, não esquecendo da funda que abateu Golias. Nas cavernas de Ein Guédi ele treinou seus guerreiros para as batalhas que consolidariam o reino, e, de quebra derrotariam Saul, seu perseguidor.

Mas na vida pessoal e afetiva, Davi sofreu e fez sofrer muito e boa parte dessa dor está nos salmos. Traiu e mandou para a morte seu melhor comandante, Urias, para ficar com Batsheva (Betsabé), mulher de Urias e mais tarde mãe de Salomão, o rei. Seus filhos lutavam pelo poder, mesmo com o pai reinando. Um deles, Amnon, violentou a irmã, Tamar. O outro filho, Absalão, vingou o incesto matando Amnon. Absalão levantou um exército contra o próprio pai e acabou morto, apesar de Davi não desejar a morte do filho rebelde. Tremendo drama familiar.

Desembarcamos num gigantesco parque de estacionamento onde deveria haver uns 40 ônibus estacionados – sem exagero – e fomos caminhando até a estação do veículo que nos elevaria, por cabo aéreo até o topo da meseta onde está Massada. O veículo, um teleférico -

é tão grande que cabe de uma só vez mais de 50 pessoas e percorre a distância em dois ou três minutos.

E aqui estou eu nesse sítio histórico e mitológico. Ruínas, aridez, a luz solar cegante, a paisagem grandiosa e lá embaixo o azul escuro do Mar Morto a perder de vista, as montanhas violáceas, o céu - de um azul total, nuvem nenhuma – teto absoluto a proteger nossas cabeças. Estou no cenário da ultima resistência contra o exército romano.

Desembarco do teleférico e da ponte de madeira que leva ao platô, repentinamente meus olhos dão de cara com o fundo do abismo. Lá embaixo, a mais de 300 metros em linha vertical, ainda há sinais do acampamento romano. Numa fração de segundos, como o riscar de um raio, o passado se faz presente aqui e agora. O suor gruda a camisa na minha pele. Por dentro estou gelado de pavor.

O cerco, comandado pelo general Silva durou seis anos e só foi possível penetrar na fortaleza depois que os romanos construíram um aterro que lhes permitiu escalar as muralhas. Mas os soldados romanos não encontrariam nenhum judeu vivo. Estavam todos mortos, quase seiscentos cadáveres. O suicídio coletivo foi um recado taxativo: era preferível morrer do que ser escravo de Roma, pois este era o destino dos prisioneiros.

Nos altos de Massada caminha-se em silêncio respeitoso. Alguns conversam à meia-voz e se ouvem apenas as palavras do guia. Sopra uma brisa refrescante, mas a atmosfera é tensa, pesada. Quase dois mil anos depois da tragédia, uma energia insólita ainda permeia nossos passos por entre os escombros das mikvaot (*) ressequidas, onde as crianças e as mulheres de Massada tomaram seu derradeiro banho ritual.

Não me lembro de ter feito nenhum esforço físico extra naquele dia, mas ao descer do teleférico me senti completamente exausto, sem forças. No resort, vou direto para o banho termal. Deito-me numa esteira e durmo quase que imediatamente.

Alguém me acorda meia hora depois e me chama para o refeitório. Não tive ânimo para mais nada. Muitos foram caminhar ao encontro da lama terapêutica do Mar Morto - e a tradicional foto do turista boiando na água lendo jornal - onde a intensa salinidade não permite a submersão.

Fico deitado numa esteira na varanda do resort, espiando Massada no alto à minha esquerda e o mar à direita. No retorno à Jerusalém, já no crepúsculo do dia, meu pensamento continua naquela fortaleza destruída pelos romanos há 1923 anos atrás, enquanto nosso guia nos dá as últimas instruções antes de retornarmos ao hotel. Ao lado do ônibus em movimento, como que nos acompanhando, rente às montanhas da Judéia, uma serena lua cheia nos observa.

(*) piscinas para banho ritual. Singular: mikvah

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

TAMBORES DISTANTES

E então gritávamos

Canções líricas

Poemas épicos

E recitávamos versos

Do Rei Davi

(“beija-me com o beijo

da tua boca

pois mais embriagadores

do que o vinho

são teus amores”)

Mas tudo isso já era

Pois isso tudo

Era por demais conhecido

Aconteceu noutra era

Era quando ouvíamos

O rugido enlouquecido

Das então muito elétricas

Harpas de Hendrix

Arrepiando frementes

Nosso cabelo comprido

E agora

Qual Fênix urgente

Portando garra mortal

Retorna again and again

Nada de Novo cavalgando

No dorso virtual

Nos transformando em reféns

Enclausurados na casca

Do ovo da serpente

E então quando

Alguém me chamou

De saudosista

E quando você me lembrou

Que deixei alguma pista

Dos meus tempos de trotzquista

Ocorreu-me estar

Sempre e cada vez mais

E outra vez

De novo sob o sol

Beijando o beijo

De tua boca

Bebendo o vinho

Dos teus amores

E dançando ao som

De distantes tambores

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A COLONIA CLÁSSICA

A serra gaúcha foi colonizada basicamente por camponeses italianos vindos do Vêneto, Trento e Lombardia. Os primeiros grupos chegaram a partir de 1875. A região não tinha estradas, todo o transporte nos primeiros anos era feito no lombo de animais de carga, através de picadas abertas na mata.

A inauguração da estrada de ferro em 1909 impulsionou a colônia em todos os aspectos. Foi o fim do isolamento e o começo de uma nova era. A Colônia primitiva e isolada começaria então a sedimentar as bases para a pequena indústria, que mais tarde, nos anos 50 e 60 se projetaria para todo o estado e o país: metalurgia metal-mecânica, produção de vinhos e espumantes, indústria moveleira.

Aquele tempo (1909 até fins de 1970) foi o que eu chamo de período clássico da colônia, que me viu nascer e crescer até a adolescência, quando então dela me despedi em 57. Foi a colônia movida a trem de ferro, que só parou de andar no início dos 70, quando arrancaram seus trilhos .

A serra gaúcha nos deu vários clássicos, sim. Na culinária de inverno, o reconfortante brôdo, servido nos dias e noites gelados de maio a setembro.

O brôdo é um caldo de galinha, que se toma acompanhado de muito queijo ralado, pão e carne lessa, que são os pedaços fervidos da galinha, fria e salgada fora da panela. Uma das variações do brôdo é a sopa de capeleti ou de agnolini, pequenas pelotas recheadas de frango ou ricota.

Outro clássico que praticamente desapareceu por falta de matéria prima – a caça - é a passarinhada frita comida com polenta e molho.

E finalmente, mas não em definitivo, o super-clássico galeto com polenta frita e salada de radicci temperada com vinagre e pedacinhos de bacon frito, que na minha infância era chamado de “al mena rosto”, ou frango assado na brasa.

No futebol também tivemos clássicos: O Serrano x Esportivo em Bento, o Guarani x Juventude em Garibaldi, o Serrano x Juventus de Carlos Barbosa e o maior de todos, o Fla x Ju em Caxias, Flamengo x Juventude, que depois virou Ca x Ju.

A era clássica da serra gaúcha acabou juntamente com o fim do transporte ferroviário e o início do asfalto. Começa nos 70 o período da plena indústria e de seus valores agregados. O galeto vira um prato estadual, gaúcho, se incorpora às churrascarias porto-alegrenses e ganha o Brasil e o mundo. A culinária e o artesanato são agregados ao turismo nascente e a renda das famílias aumenta.

Minha geração é uma das últimas que viveu aquele período na serra gaúcha. Sou um sobrevivente da Colônia Clássica e da enchente de 41. Duas características daquela era: não havia asfalto nem televisão. Mas tinha cinema e muitos! Já falei do Trianon e do Rex em Garibaldi, verdadeiros palácios de fina acústica e paredes acolchoadas de veludo?

Não tinha, asfalto, é verdade, mas as estradas da serra que ligavam as cidades eram de macadame, secas no verão e firmes na temporada de chuva, mas nas colônias miúdas, quando chovia,os caminhões, os carros e os táxis entravam no calçamento das cidades espalhando lama no paralelepípedo das ruas, chacoalhando os pneus envoltos nas correntes, que era a única maneira de não ficar atolado em alguma biboca no meio dos vales profundos do rio das Antas.

O renque de eucaliptus

Tio Alberto – que na família era chamado de Berto – foi enlouquecendo silenciosa e completamente logo depois do fim da Segunda Guerra, não por causa da dita guerra ou das perseguições aos descendentes de imigrantes, muito comum naquele tempo, mas porque, dizia-se na família, Berto tinha perdido todo o dinheiro na quebradeira dos bancos e isso, talvez, diziam, tinha afetado irremediavelmente sua cabeça.

Passara a guardar o pouco dinheiro economizado na venda das colheitas debaixo do colchão, já que, como se sabia, os bancos não eram de confiança. E então, de uma hora para outra, Berto foi sendo tomado por forte sentimento de desconfiança, de tudo e de todos.

Seu quarto ficava sempre fechado à chave, que ele trazia na guaiaca, um cinto largo de couro com vários compartimentos, onde também guardava moedas, palha e fumo, um coldre e bainha para arma branca.

Também era voz corrente na família que a falta de mulheres na vida de Berto seria uma das causas de sua loucura. Mas o tempo – e o vento principalmente – se encarregariam de negar

essa tese.

No final dos anos 40 a Vila do Lageadinho – onde moravam quase todos os parentes de Berto – se erguia na margem direita do rio Taquari, que nasce nos Aparados da Serra e desce naquela região de Encantado no sentido norte-sul. Na altura do Lageadinho o vale do rio forma uma grande planície de quase dois quilômetros de várzea, ladeada por montanhas dos dois lados. No vale, nos meses de outubro e novembro, a força do vento canalizado pelos morros balança os extensos milharais plantados logo depois do final do inverno.

Na noite em que Berto teve o grande surto, uma ventania fora do comum sacudiu casas e paióis por longas horas durante a madrugada. De manhã encontraram Berto espumando pela boca, em delírio, disparando palavras sem nexo no escasso dialeto vêneto do vilarejo. Ele estava junto a um comprido renque de mudas de eucalipto que plantara freneticamente desde o início da noite até pouco antes do sol nascer.

O Lageadinho ficou em estado de choque. Onde se viu, plantar eucalipto de noite. Berto plantara uma extensa fileira de mudas na extrema do potreiro que acompanhava a estrada, numa linha reta de quase quinhentos metros.

De bruços ou de barriga para cima, não saiu mais dali. Soltava um uivo agudo e praguejava contra Deus, a Virgem Maria e a Igreja. Primeiro chamaram o padre, que preferiu rezar à distância daquela alma danada. Sem conseguir resultados imediatos, o padre decidiu voltar à cidade, de onde retornou em seguida com um médico, um enfermeiro, uma ambulância e quatro soldados da Brigada. A chegada da polícia e do aparato médico trouxe Berto de volta à realidade.

Instintivamente puxou do facão, correndo para o descampado do potreiro, brandindo a lâmina em defesa. Foi cercado, laçado como um boi brabo, levado de arrasto e empurrado com violência para dentro da ambulância.

Berto foi levado para Porto Alegre onde foi internado no Hospício do Partenon. Lá ficou por mais de três meses. Um dia fugiu, atravessou a cidade a pé, de madrugada. Vadeou a nado os rios Gravataí, Sinos e Caí, sempre caminhando de noite e dormindo de dia no mato, escondido da polícia e dos enfermeiros do hospício, que ele imaginava em sua perseguição.

Depois de vagar dias e noites pelos campos da Depressão Central , Berto reencontrou o Vale do Taquari, sempre guiado pela vazante do Jacuí.

Chegou no Lageadinho depois de 150 quilômetros de caminhada, morto de fome, os pés em carne viva. Parecia um bicho envolto em trapos. Temerosa, a família não permitiu que dormisse na casa. Arrumaram um quartinho no paiol de milho e lá ficou Berto.

Raramente saia. Comia a comida e trocava a roupa que as irmãs traziam, mas não freqüentou mais a casa da família. Nunca mais foi à missa nem à bodega do vilarejo, mas ajudava na época de plantio e colheita. Criou fobia de polícia. Bastava que dissessem, mesmo de brincadeira, “olha a polícia” que ele saía rápido em direção ao paiol.

O tempo foi passando e duas décadas mais tarde a estreita fileira de mudinhas de eucalipto, plantada por Berto na noite em que enlouqueceu - transformou-se numa imponente muralha de troncos com até vinte e cinco metros de altura. Eram quase trezentas árvores enfileiradas de uma ponta a outra da cerca.

Nas tempestades, enquanto o vento ondulava os galhos mais altos, Berto perambulava por entre os troncos, admirando lá de baixo a copada revolta das árvores.

Pelo resto de seus dias Berto passou vigiando quase que diariamente a fileira de troncos, matutando em silêncio e observando a direção dos ventos.

Berto e sua loucura tranqüila passaram a fazer parte dos costumes e hábitos do Lageadinho, como a festa do padroeiro, as enchentes e as colheitas. O tédio, a indiferença e o pouco caso das pessoas nunca deram importância ao plantio do eucalipto, gesto que ficou conhecido apenas como mais uma extravagância daquele maluco solitário.

Berto morreu num dia qualquer dos anos 70. Sua parte na propriedade da família foi dividida entre os irmãos e seus poucos pertences doados à capela da vila. De Berto mesmo, a única lembrança que ficou foi o renque de eucalipto.

Alguns anos depois, quando a prefeitura do município mandou asfaltar a estrada do Lageadinho, o renque inteiro foi posto abaixo. Todos os eucaliptos foram cortados. Ficaram apenas as toras decepadas a menos de 50 centímetros do chão

Os dias se passaram e aos poucos um sentimento de estranheza foi tomando conta das pessoas. A paisagem era outra. Por mais que ignorassem era evidente que alguma coisa ali fazia falta. Uma muda e perturbadora sensação passou a tomar conta das pessoas, como se o corte do renque tivesse contrariado algum desígnio secreto.

A confirmação do pressentimento veio na primeira ventania daquele mesmo ano. Sem a defesa do quebra-vento natural formado pelos troncos e galhos dos eucaliptos, os ventos arrasaram metade da vila, derrubando paredes, destelhando casas e pondo abaixo árvores isoladas, arrastando gado e cercas.

No dia seguinte Lageadinho parecia saída de um terremoto ou de um incompreensível e inexplicável desastre. Era a primeira vez em mais de oitenta anos de vida que o lugar sofria uma catástrofe daquele porte, muito pior que a enchente de 41 que cobriu de água toda a várzea.

E então para o povo do Lageadinho ficou claro o gesto de Berto, quando, naquela longínqua madrugada de depois da guerra ele decidira plantar o renque de eucaliptos.

Berto intuira, na sua loucura, que o renque seria uma defesa para a vila, uma barreira contra os ventos. E guardara sua intenção em silêncio, como se ninguém mais do que ele merecesse a dádiva e a dimensão daquele ato, só agora completamente entendido e revelado à sua gente.

Nos anos seguintes as toras decepadas brotaram novamente e as árvores foram renascendo. O renque de eucaliptos se refez e está de pé até hoje.

sábado, 1 de agosto de 2009

Vinhotrip


“penso che um sogno così

non ritorni mai più”(*)

cantava o mano Lui

sentado sobre a mesa de mármore

do Café Luna Park


um copinho só

pelamor de São Jacó

suplicava Marcelino Gutierrez

na frente do Café Luna Park


esta noite dormirei

com a noite dormirei


ramo, folha

flor e fruto

mosto

e um golpe pronto

galopando na garganta

o gosto de causos

e viagens

e uma bala de garrucha

cavalos, carretas e dornas

sobem pela Avenida Rio Branco

aromas de malvasia


esta noite dormirei

com a noite dormirei


Dura excursão

De sonhos concretos

Navegando por vinho novo

Encharcado de peitos

E depois vai dançando

Vai descendo e aquecendo

Lembranças

De invernos esquecidos

E vai perseguindo minha alma

Vertiginosamente habitando

Cada dobra das vísceras

E os lugares mais estranhos

Desta Colônia da Boa Vista

Do Vinte Sete


Esta noite dormirei

Com a noite dormirei


Salta solta uma rolha

Solta salta a rolha

Grita Moacir Holderbaum

No instante quebradiço

Do quartzo cortante

Cristais e ametistas

Tintas de negro azul

Vinificado

Explodindo em luz

Na manhã matina


Esta noite dormirei

Com a noite dormirei


Pedra de saibro

Na estrada do Borguêto

Salve Santa Tereza

Onde o rio das Antas se despede

E despenca

Em desespero rumo ao mar

(espuma e bolha

na concha da mão)


esta noite dormirei

com a noite dormirei


Garibaldi contra Bento

Mil novecentos

E setenta e três bêbados

Desfilam por último

Na procissão de São Roque

Já quase em Barbosa

Trovam trova

Em verso e prosa

E na meia-noite fria de julho

Um velho trem fantasma rola

Da Ponte Seca ao Maratá

Pelo caminho sem trilhos

Perseguindo enlouquecido

A estação do Nunca Mais


Esta noite dormirei

Com a noite dormirei


(enquanto isso

entre o Doze e o Barão

come solto um trissete

dois copos , uma garrafa

salame, graspa

e um pila)

porta via um bel biquier(**}

pelamor di San Pier


(*) primeiro verso da canção “Volare”, de Domenico Modugno, hit parade dos anos 60

(**} copo de vinho, no dialeto vêneto da Serra Gaúcha

Malvasia é uma variedade de uva branca com a qual se faz vinho espumante

Aquele 69

Sessenta e nove foi o ano em que retornei à faculdade de jornalismo da URGS depois de ficar quatro anos fora – ingressara em 64 – e depois de perambular entre um emprego de bancário e uma vida que não tomava rumo. Não me decidia entre o jornalismo ou ir embora do país.

O entusiasmo de calouro logo se desfez com o golpe de 64, minha lua de mel com a universidade foi interrompida pelas prisões e as primeiras cassações de professores. No semestre já tinha cancelado a matrícula.

Voltei em 69 para ver o que sobrara do rescaldo do AI-5. De 68 conservo na memória o ronco dos helicópteros do exército patrulhando as noites de Porto Alegre. Os milicos nas ruas, o cheiro de gás lacrimogênio.

Nos anos seguintes me perdi da minha turma de calouros de 64. Divino Fonseca, Eveline Dagnino, Ademar Vargas, Terezinha Tellini, Sérgio Caparelli, Yara Rech. O Egon (?) Fitzenreuter desapareceu nas sombras da repressão, ele e outros foram sumindo. Reencontrei um dos veteranos de 64, o Enio Squeff nos anos 90, na Praia do Santinho, na casa do Elmar Bones, o Bicudo.

Março de 69. Sala de aula do curso de jornalismo. Reencontro alguns colegas da turma de 64 e um aluno novo, Nei Duclós. Amizade à primeira vista, humor direto e espontâneo.

O marasmo pós-AI5 nos empurra para novas buscas, cinema, literatura, poesia. Longos papos nas repúblicas da Cidade Baixa, nos apês alugados, nas festinhas de fim de semana, no CA da Filosofia e da Arquitetura, badalações festivas nos bares da Osvaldo Aranha.

Vamos conhecendo as caras daquele tempo e as novas amizades surgem. Sonia Renner, Zélia Leal, Nazaré, Taba Ruas, Letânia Menezes, Paulo Burd, Marco Celso, Marlene Cohen, Ana Viola e muitos outros de quem infelizmente não lembro mais o rosto ou o nome.

Em junho daquele ano já estávamos saturados da família, do golpe, da universidade. Eu, da faculdade e do emprego de bancário. Nós, daquela escuridão sem fim. Aí tomamos a decisão: vamos viajar. De carona, de qualquer jeito. Pra onde? Para a Bahia. Quem vai? Marco Celso, Nei e a namorada Inês e eu.

A grandeza de São Paulo me assustou. Fiquei doente, com febre, de cama, dois dias no alojamento do Estádio do Pacaembu onde conseguimos pousada.

No Rio, encontramos o sol, o calor e o final da viagem. Em Ipanema, na Rua Farme de Amoedo, na cobertura de Raminhos, o entalhador, conhecemos outro Brasil, da arte genuína e expontãnea e um estilo de vida onde havia lugar para a liberdade.

Pendurei almoço no Varanda e beijei a boca da mineira Rita. Fomos detidos pela polícia do Exército, que queria saber por que usávamos roupa militar – uns coletes que ganháramos de alguém. Medo, os astronautas pisando na lua, eu mais o Nei e o Marco Celso dentro da casamata do Forte de Copacabana, lá fora o sol, as ondas e os biquínis. Foi meu primeiro cagaço da ditadura.

Fiquei no Rio até o final de julho vendo o Pasquim aumentar explosivamente a tiragem a cada edição, 150 mil, 160 mil , 170 mil, ouvindo Janis Joplin e Jimy Hendrix sem parar no meio de toda aquela fumaça que subia e descia de Woodstock.

De volta a Porto Alegre encontrei o Nei e o Marco Celso às voltas com seus blocos de poemas, um lendo para o outro o que acabara de escrever. Os poetas chegavam. Eduardo San Martin, Gilberto Gick, Nazaré, Miguel Ramos, Luiz de Miranda.

Depois das aulas e do almoço no RU, recitávamos nossos poetas prediletos e pichávamos os que julgávamos medíocres, tudo entre quatro paredes do apê, sentados em colchões no chão. Neruda (Veinte poemas de amor y una canción desesperada), Lorca (Los cien enamorados duermen para siempre), Wamosy, Quintana, Drummond, Gil, Caetano, Gal, as músicas, os livros e os filmes proibidos, ouvíamos contar que alguns de nós iam a Buenos Aires para poder assistir “Laranja Mecânica” do Kubrick.

Sentia inveja, ódio, frustação: era falta de sexo. Começamos a transar com as colegas de faculdade, com as namoradas, com as empregadas que passeavam na Redenção nos domingos à tarde. Era a revolução sexual que chegara, mas nós ainda não tínhamos nos dado conta.

Expressei minha solidão, naquele nosso jeito debochado – que era quase uma atitude existencial, ou talvez uma espécie de estilo de grupo - inventando uma paródia curta de um verso do Antonio Maria: “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire”, logo repetido ad nauseam pela tribo toda. O versinho correu mundo. Muitos anos depois me surpreendi com o Paulo Francis repetindo o mesmo bordão no programa da GNT Conexão Manhatan. Há pouco fiquei sabendo que um poeta de Brasília – Nicolas Behr - usa, desde 79, a mesma paródia como criação poética, trocando apenas o “baudelaire” por “nicolas behr”.

Fiquei marcado pelo apelido Bodelére por muitos anos e ainda tem gente daquela época que me conhece mais pelo apelido que pelo nome.

E foi também naquele 69 que, numa manhã qualquer, acompanhei o Nei, o Marco Celso e a Nazaré até a Praça da Alfândega e lá estavam pendurados no varal as folhas com os poemas.

Sentia um prazer imenso vendo a surpresa no rosto das pessoas parando para ver aquilo tudo. Fui espectador e testemunha. Vi nascer “Outubro” e “Tombam”. Ouvi a voz dos poetas lendo os poemas e vi as mãos nervosas escrevendo sobre o papel.

Mais tarde eu também escreveria meus primeiros poemas temporões. Os poemas deram frutos.