quinta-feira, 8 de março de 2012

O FINO DA PROSA

Marguerite Yourcenar


"Foi por essa época que comecei a sentir-me deus. Não faças confusão: era sempre, era mais que nunca o mesmo homem nutrido com os frutos e os animais da terra, devolvendo ao solo os resíduos desses alimentos, sacrificando ao sono a cada revolução dos astros, inquieto até a loucura quando faltava por muito tempo a cálida presença do amor. Minha força, minha agilidade física ou mental eram cuidadosamente sustentadas por uma ginástica toda humana. Mas que dizer senão que tudo isso era divinamente vivido? As ousadas experiências da juventude haviam terminado, assim como a sofreguidão de viver o tempo que passa. Aos quarenta e quatro anos, sentia-me sem impaciência, seguro de mim, tão perfeito quanto me permitia minha natureza. Eterno. Compreende bem que se trata, neste caso, de uma concepção do intelecto: os delírios, se é que lhes seja dado tal nome, vieram mais tarde. Era deus sinplesmente porque era homem. Os títulos divinos que a Grécia me concedeu depois, não fizeram mais do que proclamar aquilo que, há muito tempo, eu tinha constatado por mim mesmo. Creio que me teria sido possível sentir-me deus até nas prisões de Domiciano, ou no fundo de uma mina. Se tenho a audácia de pretendê-lo é que esse sentimento me parece apenas extraordinário, mas de modo algum único. Outros além de mim o experimentaram e outros o experimentarão no futuro". (Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar)

sábado, 21 de janeiro de 2012

DE PRIMAS E TRADUÇÕES



Minha prima Altiva Bergamaschi, infelizmente já falecida ("Altiva" deve ser lido em voz alta com o sotaque da Serra Gaúcha dos anos 60, senão perde a graça e o espírito da coisa), profunda conhecedora de Ovídio, Virgílio e Homero, que ela lia em italiano - me dizia sempre que não se deve duvidar nunca dos tradutores e sim das traduções.
Desfazia ela, numa tacada só, a tremenda injustiça que se disfarçava no mote "Tradutori, traditori".
Sempre que leio algo traduzido, como por exemplo a Profecia Maia, lembro das sábias palavras da saudosa prima Altiva, mulher simples, culta para os padrões locais e que justificava plenamente o elegante prenome.
Mas o assunto não é propriamente minha prima mas a profecia, que de forma avassaladora vem obsessionando as mentes desavisadas. E repito desavisadas porque se trata de algo obviamente traduzido de uma tradução de uma tradução feita em cima do original maia. Que raríssimos conhecem devidamente.
Alguém ai já ouviu falar na sintaxe ou na gramática dos caracteres maias? Eu também não. Pois aí é que mora o perigo. Como comprovar a fidelidade de uma tradução, se quase ninguém conhece a língua original?
Já se comprovaram erros graves de tradução de grego, latim e hebraico, línguas muito estudadas e com muitos especialistas.
Vou citar apenas um exemplo. A célebre frase "fim dos tempos"(daí fim do mundo) também pode ser traduzida como "fim das eras" ou "fim de uma época".
E por que estou escrevendo tudo isso? Sinceramente, não sei. Também não sei se estamos no limiar de uma nova era ou de um grande fiasco. De uma imensa tragédia ou de mais uma enganação histórica. O certo é que estamos a mercê de mais uma tradução. Ái de vós, traduções, se minha prima Altiva estivesse viva.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

SENSAÇÃO




Tempos atrás o Mario Medaglia me enviou três palavras que me soariam proféticas, se eu não fosse um cético treinado: “Não morresh mash”, assim mesmo no chiado sotaque manezês. Foi a primeira sensação real de eternidade que eu tive nos últimos tempos!

ODE À ALDEIA ANCESTRAL

Revisitando minha aldeia ancestral
Vi nenhum Bargamaschi
Nenhuma Fontana
Masiero algum
(alguns desses nomes fazem parte
Da minha Árvore)

No pequeno burgo
Só restaram três tipos-padrão
Os Folgatti, aposentados óbvios
Os Battiponti, que batem e trabalham,
Trabalham e trabalham
No serviço público
E os Batistacca
Que evidentemente também batem
E fazem ruído a noite toda

Bella famiglia, dirão alguns
Nessun dorma, digo eu
(não tem aquela grande ária?)
Que os meus tios maternos confundiam
Com a grande área, local incerto
De linha de cal desfeita
Onde a defesa do Auriverde Futebol Clube
Destroçava o ataque adversário nos
Potreiros do Passo do Lajeadinho

(Inspirado
pelo Mário Medaglia e pelo Luiz Lanzetta que recentemente visitaram a própria)

O BRASIL NÃO CONHECE O BRASIL

Essa frase é de um personagem do filme Bye Bye, Brasil, do Cacá Diegues. Ela não me sai da cabeça. Até minha avó materna, já falecida, repetia essa frase, que saia assim, no sotaque dela: “O Bragil non conheche o Bragil”. E continua não conhecendo.
Por exemplo. Para meu espanto, fui informado recentemente que tenho parentes em Belém do Pará, cidade que não conheço e onde nunca estive. Um primo, caminhoneiro, depois de muito ir e vir, lá se estabeleceu. Cria gado e tem um frigorífico. Eu não sabia, fiquei sabendo há pouco tempo. Aliás, eu nem sabia que tinha esse primo.
Repito, o Brasil não conhece o Brasil.

OS VIRGILIOS

Pelo lado materno há vários prenomes Virgilio na família. Há primos, tios e tios-avôs chamados Virgilio. Na família ninguém sabia ao certo o porquê de tal insistente nomenclatura. Sempre foi assim na família, em cada geração nascia algum Virgilio porque é tradição, me disseram. Tradição. Mas essa resposta não me satisfazia.
Até que um dia fiquei sabendo que Mântua, na Itália, província de onde vieram todos os Bergamaschi e obviamente todos os Virgilios Bergamaschis – é também a terra natal do emblemático poeta romano Virgilio. E tem mais. Descobri que o poeta nasceu numa aldeia chamada Andes, vizinha de Gazzuolo, “paese” natal dos Bergamaschi, separadas apenas por um córrego. Eu poderia até proclamar que agora sei de onde vem essa minha veia poética, mas achei muito pretensiosa a idéia. Na real, não tenho nem certeza se existe a tal da veia. Sei apenas que quase sempre tem um rio que passa pela vida dos poetas, seja o Taquari da Serra, seja o Tejo comparado com o rio da aldeia do amado poeta português ou uma forma humana e não menos caudalosa como a Portela do Paulinho da Viola, ou o pequeno rio da nossa aldeia ancestral.

sábado, 21 de maio de 2011

SINAL DE VIDA



Acordo, abro os olhos, estou vivo. Bom, menos mal, vamos em frente, esqueça as dores na coluna digo pra mim, olhe só lá fora, que sol! Sempre me proclamei um otimista. A manhã passa, os dias passam, ando pela casa, caminho, leio, tenho tido, olha o tempo do verbo - maravilha das maravilhas! - ereções expontâneas, não vou dizer quantas, que não estou aqui pra me gabar.

Mas fulano, me alerta um ouvinte atento, tu já me contaste isso antes. Observo que o meu problema momentâneo não é de natureza sexual mas de memória. De novo? indago pra mim mesmo. Há coisas muito piores, me consolo. Coisas que me incomodam: excesso de futebol e de ausência de crítica a esse excesso. Aí ouço dizer: mas isso é coisa de quem não gosta de futebol.

Joguei futebol toda minha infância e adolescência, fui repórter esportivo, vejo futebol todos os dias na TV, assisto e leio os melhores comentaristas desse jogo e dizem agora que não gosto do esporte porque exijo mais crítica.

Mude de assunto, rapaz, estás passando a idéia de um cara senil cheio de incômodos, vão te achar chato e redundante, mal humorado, de mal com a vida.
Anima-te, neste teclado tens o mundo aos teus pés, digo, às tuas mãos. Clique ali e ouvirás e assistirás Nat King Cole cantando Perfidia ou Santana estraçalhando Soul Sacrifice em Woodstock. Clique lá e lerás blogs empolgantes, contundentes, revelando que os teus colegas jornalistas estão melhores do que nunca.

O elogio unânime à internet também me deixa cabreiro. Noto e observo: continuo incomodado com os excessos. Há um excesso de crédito monetário na praça. Como é que dizia Vinicius naquele poema
célebre? Há um frenesi de dar bananas, porque hoje é sábado. Tive a semana inteira para escrever estas linhas e fui digitá-las transgressivamente no dia de descanso.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

AVE CAIO!


Depois do jogo de domingo na Ressacada, alguém me disse com a boca amarga do ressentimento: “Esse Caio tem a cara da torcida deles, é baixo, feio e tem um sotaque brabo”.
Na hora não reagi à odiosa soberba. Não sei dizer se fiquei mais perplexo diante da estupidez do meu interlocutor ou face à grandeza do evento que se desenrolava no estádio ensandecido de euforia.
Pois é esse baixinho feioso e com uma voz fininha sem o menor glamour que vai ficar na história do Avaí Futebol Clube e da cidade de Florianópolis como o autor de uma das maiores façanhas que um jogador de futebol pode fazer por seu clube e por sua torcida.
Três gols espetaculares e uma virada inesquecível que transformaram, como num toque de mágica, um jogo desesperado numa apoteose de final de campeonato.
Avaianos, eu sei que é difícil atender esse pedido, mas dêem uma breve pausa no êxtase e reflitam por um breve instante.
E parem de pagar ridículas promessas ou agradecimentos de joelhos porque pega mal.
Porque diante da grandeza do pequeno Caio qualquer homenagem ou agradecimento será ínfimo, reles, diminuto.
E pelo amor de Nossa Senhora da Ressacada, não me venham com estátuas porque a gratidão verdadeira não cabe em dimensões de bronze.
Uma estátua seria muito pouco para homenagear os três golaços do imortal Antonio Caio da Silva Souza.
Que homenagem seria maior do que transmitir às futuras gerações avaianas o nome do herói?
Guardemos dele apenas o nome completo e um sorriso permanente, enquanto ruge um silêncio ensurdecedor pelos lados do Estreito!

domingo, 28 de novembro de 2010

FLORIANOPOLITANGO



Certos tangos
Ilhéus tangos
Isolados tangos
Insistem em tocar
Em soar, em gemer
Fazendo tremer
Fazendo aparecer aparições
Escondidas nas sombras
Que teimam em rimar
Com alfombras

Oh tangos crepusculares
Cantores de tantos mares
Oh ilha marrana
Açoriana, campechana
Colecionadora de bacanas
Abrigo e cana de párias
Oh ilha senhora
Madona da praia
De mangues e sombras
Insular melodia
Mediodia lunar

Mas eis que
Impelido por sina repentina
Bebo, fumo e aspiro
Sutil toxina
E em estado apopléctico
Catártico, apocalíptico
Apelo a Apolo
Oh deus da bela Acrópole
Salvai esta desterrada polis

Porém dessa cachaça
O eflúvio solerte passa
E então, obstinado
Volto a insistir
Nos gols do Albeneir
E naqueles tangos
Curtidos tangamente
Relapsamente
Certos tangos
Ilhéus tangos

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

RITA PAVONE, AOS 63 ANOS, EMOCIONANTE

ELA ESTOUROU NOS ANOS SESSENTA COM "DATEMI UN MARTELLO", DEPOIS SUMIU E AGORA RETORNA PELA WEB, COM AQUELA MESMA VOZ PODEROSA DA GURIA ROQUEIRA.

(Quem me mandou o vídeo foi minha amiga Ines G. Wilson, colega dos tempos da faculdade de jornalismo. Gracias, Ines.)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

SOBRE DERROTAS E VENCIDOS

Djalma Santos, Pinheiro, Brandãozinho, Nilton Santos, Castilho e Bauer
Embaixo: Julinho, Humberto, Baltazar, Didi e Maurinho



Minha mais remota lembrança da Copa do Mundo é de 1954. Era um sábado ou domingo, o Brasil iria enfrentar a Hungria pelas quartas de final. Enquanto a família aguardava o início das transmissões pelo rádio , eu preferi , ou melhor, aproveitei minha chance da semana e fui à matinê do Cine Trianon – o único cinema de Garibaldi na época - ver um faroeste, que pelos meus cálculos deve ter sido “Alma de Renegado”, com Randolph Scott.

Quando sai da sala escura alguém me disse que tínhamos perdido por 4x2. Mais um capítulo daquilo que Nelson Rodrigues chamaria de “complexo de vira-latas”. Mais uma derrota, nem tão tremenda como a de 50, mas mesmo assim uma derrota. Diferente dos nossos faroestes , quando o mocinho ganhava todas no final, a realidade, sempre contrariando a ficção, era um filme que não passava pelas nossas cabeças naqueles anos.

Muito tempo depois, ao ler a biografia de Stefan Zweig, “Morte no Paraiso”, de Alberto Dines, eu tomaria conhecimento da real dimensão e de uma outra face do perdedor. Zweig sempre foi obcecado pelo perdedor, pelo derrotado, pelos humilhados. Dizia que estes são os verdadeiros vencedores. Na derrota está a profunda vitória do perdedor, pois dela ele pode retirar forças e dar a volta por cima. Mais ou menos isso. Parece literatura de auto-ajuda, mas o “Fliegender Oestereicher”, o Austríaco Voador, tinha razões que a razão não pode ignorar.

Refugiado do nazismo, Stefan Zweig tinha escolhido o Brasil como asilo, porque simplesmente se encantou por nosso país, pelo povo, pela geografia ainda quase intacta nos anos 30, pelo homem cordial. Logo depois ignorado, desiludido e deprimido pelas trevas triunfantes, escolheu o suicídio. Uma derrota aparente. Nos anos seguintes, seu livro “Brasil, Pais do Futuro”, criticado e desprezado na época, ganharia completo reconhecimento.

Quando Zweig partiu desta, eu mal completara 4 meses de vida e minha mãe lutava com fraldas e panelas numa pequena casa de madeira, alugada por meu pai de algum colono em Nova Brescia. Meu pai, obcecado pela manutenção da casa e a busca da riqueza imediata, cavava uma jazida de ametistas nas margens do Rio Fão, próximo à vila, que então era distrito de Arroio do Meio. Trabalhou como um louco, dizia minha mãe.
Teve sorte também, achou o que buscava, ganhou dinheiro, comprou casa na cidade, perdeu tudo, reergueu-se novamente, botou uma pequena indústria, uma lapidação - que logo após a guerra faliu - em sociedade com um amigo alemão, Julius Wolf, Seu Julio, também refugiado como Zweig , perdido no tempo e na memória como tantas outras figuras da minha infância. Julio Wolf foi o primeiro refugiado que passou por nossa família. O segundo foi Arthur Boehm, casado com minha tia Elly, tio político e pai de meu primo Roberto.

Passaram-se os anos e aí lembro do português com sotaque do meu avô Edmundo, que sempre repetia a frase quando ia contar um causo. “Passaram-se os anos” para este homem que falava duas línguas com absoluta correção gramatical e depois descobri que isto não era tão raro assim naquele tempo. Havia boas escolas, mesmo no interiorzão das colônias. E lia-se. Vovô Edmundo fez o curso de dentista prático- licenciado, estudando com a ajuda de livros didáticos escritos em português e alemão. Aposentou-se no início dos anos cinqüenta.

Então veio 58 e eu já não morava mais nas serranias da minha infância. Em junho daquele ano o potente rádio transistor que escutávamos no salão de leitura do internato – chiava estática por todas as paredes da sala onde nos amontoávamos para ouvir a voz empolgada de Mendes Ribeiro, o famoso narrador esportivo da Rádio Guaiba. “Deus não joga mas fiscaliza” virou mote e máxima para os anos seguintes. Éramos enfim vencedores e pela primeira vez “ a fria Europa” se curvava aos nossos pés. Garrincha, Pelé e Didi deslumbravam os europeus e nós nunca mais nos sentiríamos com complexo de vira-latas.

domingo, 4 de julho de 2010

ANOS DOURADOS

Tito Lang, eu, Martinho Rottmann e Harry Fischer, o Fichinha, colegas de turma do Clássico.
Essa elegância e esse humor eram todo dia assim. Bons tempos. A foto é de 1959, dos arquivos implacáveis do Martinho



Me despedi do mundo da minha infância e adolescência numa manhã de verão. E como na canção de Caetano Veloso, "no dia que eu fui embora, não teve nada de mais". Peguei o trem na estação de Desvio Blauth, município de Farroupilha, e me mandei para a capital.

Meu pai conseguira vaga no Curso Clássico do Seminário Concórdia, uma escola da Igreja Luterana do Sínodo de Missouri. Explico que meu avô paterno era luterano do sínodo alemão dessa mesma Igreja e assim, por caminhos cruzados, tive a oportunidade de estudar num dos melhores colégios de Porto Alegre daquela época.

Assisti aulas com Arnaldo e Donaldo Schueller, Atilio Chemello, Martin Flor, Ernst Rupp (o Velho Alemão), os professores Walther Kunstmann, Paul Schelp, Arno Gueths, Fritz Otten e outros cujo nome não lembro, mas de igual competência.

Passei todos os anos do curso clássico em regime de internato. Aulas de manhã das sete e meia às doze e meia. À tarde e à noite, duas horas de estudo, obrigatório. Folga aos sábados à tarde até domingo às 18h. Tínhamos campo de futebol, quadras de basquete, pistas de atletismo e pavilhão de ginástica coberto. Biblioteca com mais de dez mil volumes, auditório e um piano Essenfelder, laboratório de Física, Química e Biologia, enfermaria, capela com um órgão majestoso onde o Professor Hans Rottmann, em tardes inesquecíveis, nos transportava nas tocatas de Bach.

O colégio tinha uma vista privilegiada. Dos altos da Lucas de Oliveira via-se o velho hipódromo dos Moinhos de Vento, o centro da cidade e o Guaiba a perder de vista. Éramos vizinhos do IPA (Instituto Porto Alegre) e do Colégio Americano, onde todos os anos assistíamos às olimpíadas esportivas metodistas, espichando o olho para as alunas deste último.

Em 60 também concorri a uma olimpíada, mas a estrela do evento - pelo menos para mim - foi Sonia Knack, que seria minha primeira namorada. Ela arrebatou o público interpretando "Pour Elise", de Beethoven, no piano. Nosso namoro durou pouco, as familias interferiram, era tempo de estudo e não de namoro.
Muitos anos depois nos reencontramos e para alívio mútuo conseguimos passar a história a limpo, com saudável nostalgia e muito bom humor.

Enquanto isso, minha lua de mel com a vida cidadã de Porto Alegre ia de vento em popa. No final dos 50 a cidade tinha mais de 40 cinemas em atividade e uma vibrante orquestra sinfônica conduzida pelo maestro húngaro Pablo Komlos, uma personalidade artística sem par e um marco cultural portoalegrense daquele tempo.

O coral do Seminário Concórdia foi escolhido para atuar na ópera "A Flauta Mágica", de Mozart, com a regência do Maestro Komlós. Os ensaios eram no pavilhão de ginástica, com atuação de parte da orquestra. Descobri então a magia da ópera e não perdi mais nenhum ensaio. Acabei decorando trechos inteiros da melodia e do texto em alemão, conservados na memória até hoje.

terça-feira, 29 de junho de 2010

EVOLUÇÃO LINGUÍSTICA


Nos próximos séculos a Rede Globo certamente será lembrada pelas futuras gerações por ter inventado - além de outras notáveis criações - a impressionante língua do Cuí, parente distante do Latim.

Não confundir o Cuí com o Cuid e seus dialetos Cuod e Cuicúncue. O Cuí, segundo alguns filólogos, já é um sério concorrente do Tatêindo (assim mesmo, com circunflexo e o i paulistês, que é para diferenciar da variante carioca, Tatêundu) na preferência do jargão popular.

Como todos podem constatar diariamente nos capítulos da novela das oito, o Cuí, por ser de fácil assimilação, está obtendo elevadas taxas de penetração e aprendizado junto à audiência televisiva.

Seu uso, além de superar os Tatendos, ameaça seriamente o Mazbá no Sul e o Dij catarinense, que, como se sabe, são línguas altamente conflitantes entre si e totalmente ininteligíveis para os demais habitantes do país.

Apenas o Shproch, falado nas Altas Serras, permanece imune às influências do Cuí. Não se sabe exatamente por quais motivos ou causas, porém os filólogos a serviço da Globo estão pesquisando seriamente o assunto.

Aguardemos, pois, com infinita ansiedade o desenrolar de mais este capítulo de nossa evolução linguística.

quarta-feira, 3 de março de 2010

BARBÁRIE A VISTA


Não é de hoje que assistimos quase que diariamente a cenas de barbárie explícita no noticiário televisivo, mostrando a quantas anda a nossa realidade. O Jornal da Tarde, da Globo, na edição de hoje, tenta amenizar entremeando matérias amenas - boa alimentação, cuidados com a pele no pescoço - mas as cenas são por demais indeléveis.

Um ônibus incendiado de propósito por marginais criminosos, lotado de passageiros, o sujeito que dá um tiro na cara do outro porque não quis abrir a janela, só pode ser sintoma de barbárie.

Um dia Rosa Luxemburgo disse que teríamos que escolher, no futuro, entre socialismo e barbárie. O socialismo, por enquanto, está descartado. A outra alternativa, pelo jeito, está batendo na nossa porta.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

VAI ESCREVER, VAGABUNDO

Hugo Carvana, no filme "Vai Trabalhar, Vagabundo"

A difícil missão do jornalista, escritor, memorialista, poeta, seja lá quem for que esteja a batucar num teclado, é escrever. Não dá pra escapar desse destino meio amargo, meio doce. E vem de longe essa coisa de escrever. Parece que estou ouvindo minha mãe me dando adeus e me advertindo premonitoriamente: "e vê se escreve! "

Difícil, sim, porque escrever se confunde com o ato de trabalhar, verbo torturante pra mim, confesso. Vejam a etimologia, vem de tripalium, um instrumento de tortura! E não me digam que vocês não sabiam. Mas enfim, trabalhar era preciso e hoje não, porque estou aposentado. Confesso novamente.

Escrevi minhas primeiras redações no primário, depois no ginásio. Escrever era algo secundário, como os cursos. A coisa ficou importante quando entrei no jornalismo. A batalha do texto jornalístico, objetividade, clareza, imparcialidade, a busca da informação, as fontes. Mas isto foi noutra época. E agora mais ainda.

Hoje muitos de nós não temos mais obrigação profissional de escrever. Mas continuamos, seja por vocação, consciência, diletantismo ou obsessão. Admiro, invejo e tenho orgulho de meus amigos ou conhecidos, escritores, poetas e jornalistas. E por dever de consciência devo admitir: não é inveja boa, é inveja mesmo.

Depois de muito escrever na ativa admito que hoje prefiro mais a leitura. Mas só leitura deixa a porta aberta para certos vicios que tão bem conhecemos e que são a desdita de muitos colegas. Ainda bem que despertei para o universo blogueiro e nele viajo sem parar, me esqueço até da nossa grande e sagrada missão que é teclar. Como não se perder no universo sarcástico de um Renzo Mora, na simplicidade profunda de um Fábio Bruggemann, no engajamento do Nei Duclós, do Sérgio Rubim, de um Marco Vasques, de um César Valente e de tantos nomes talentosos desta ilha do nosso exílio?

Então só me resta recomeçar, refazer o texto, tirar aqui, acrescentar mais adiante. Me animo com esta frase, nunca esquecida e escrita pelo Claudio Levitan, autor de letras inesquecíveis:
Nada mais nos resta a fazer, senão fazer.

P.S.: O título aí de cima foi inspirado por uma conversa com meu velho amigo Martinho Rottmann, a quem reencontrei depois de quarenta e tantos anos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

EU PERDIDO, ENTRE MEU PAI E BRIZOLA




















Dia da posse de Brizola


Em 58 conheci Brizola em pessoa na minha serrana Garibaldi, num comício noturno, nos altos de um café tradicional da cidade, que ainda tinha sotaque da antiga colônia italiana.

Meu pai era do diretório municipal do PTB (do Getúlio, não da Ivete) e insistia a toda hora que eu deveria conhecer "e me apresentar" ao homem.
- Vai e diz: estou contigo, Leonel!

Eu andava pelos 16 anos, estudava num internato em Porto Alegre e na ocasião estava de visita à família nas férias de julho, mas meus interesses ainda não incluiam a política. Além disso, o tom impositivo das decisões do meu pai já começava a me causar uma inquietação constante e um nervosismo que eu mal conseguia conter ou disfarçar.

Era início da noite, um grande foguetório recepcionou a caravana. Brizola desembarca do carro na frente do diretório, todos querem apertar sua mão. Meu pai me arrasta pelo meio da multidão, passa na frente de alguns correligionários mais deslumbrados e me coloca de frente para o homem e num tom da maior intimidade - não faço a menor idéia se ele tinha alguma chegança no líder, pelo menos até então - enlaça a cintura de Leonel Brizola, exclamando: "Leonel, quero te apresentar meu filho mais velho".

Enquanto me apertava a mão com força, Brizola falou rapidamente alguma coisa que não consegui ouvir direito, devido ao vozerio e ao alvoroço da sala apertada e cheia de gente. No momento seguinte uma pequena multidão já arrastava o homem para fora da sala de onde foi direto para uma sacada do segundo piso do prédio.

Durante todo o comício meu pai não arredou pé da sacada, grudado no homem e gritando de vez em quando "apoiado" e "muito bem, Brizola".

Naquela eleição Brizola ganhou com uma vantagem de mais de duzentos mil votos sobre o coronel Walter Peracchi de Barcellos. E meu pai ganhou uma pequena fortuna apostando com alguns amigos, mas adversários políticos. Era jogo a dinheiro, casado e guardado no cofre do ecônomo do clube social da cidade. De um ganhou dando cinquenta mil votos de vantagem. De outros ganho no taco-a-taco. Dessa vez, Seu Arno ganhou lindo. Mas perderia, e muito nos anos seguintes.

Palanques, cátedras e púlpitos sempre fascinaram Seu Arno. Ele mesmo proferia calorosos discursos e arengas por qualquer motivo. Mas, por culpas do destino ou da vida, tinha um marcado sentimento de inferioridade por não ter estudado em colégio ou faculdade.

E projetava tudo isso com muita ênfase para cima de mim, dia após dia, visualizando uma trajetória para seu primogênito, "futuro bacharel", "brilhante orador", quem sabe, talvez, "um nobre causídico", me encurralando mais e mais para o que ele considerava muito justamente uma carreira de valor.

A pressão começou bem cedo. Eu ainda não terminara o primário e já era compelido, cooptado e instigado a "discursar", a "declamar", a me "posicionar como orador" em aniversários, casamentos e todo tipo de evento que reunisse mais de uma dúzia de pessoas.

Sua primeira providência foi comprar um "Manual do Orador", com discursos prontos para qualquer tipo de efeméride. Minha estréia foi no casamento de um primo, eu deveria ter no máximo uns dez, onze anos de idade.

No meio da festa, meu pai interrompe a música e solicita aos convivas uma pausa para uma homenagem aos noivos. Seu filho, "jovem orador", faria um discurso, como já prometido, em homenagem ao casal nubente.

Dito isto, fez-me subir a uma cadeira, de onde proferi - numa entonação cheia de timbres retóricos e gestos previamente marcados e ensaiados no papel que eu decorara horas antes, não sem deixar de sentir um tremendo nervosismo, por medo de esquecer o texto na hora - minha primeira apresentação em público.

Tudo deu certo, as palavras sairam vibrantes - reconheço que tenho certo talento para a coisa - veio uma tempestade de aplausos. Vi os olhos úmidos de meu pai, a boca semi-aberta em êxtase, a cabeça levemente caída para o lado, os braços abertos em atitude de plena satisfação.

Daí para a glória precoce foi um pulo. Fiquei conhecido como "o guri do Arno, aquele que discursa e declama uma barbaridade".

Algum tempo depois, no Grupo Escolar de Carlos Barbosa fui destacado para ser o marchador-pelotão nos desfiles da Semana da Pátria. E ao final das marchas ao som do bumbo e do tarol, subi aos palanques e declamei um soneto patriótico, arrebatando aplausos e cumprimentos da diretora e das professoras da escola.

Mas, para minha surpresa, nesse dia, Seu Arno ficou em casa me esperando. Não compareceu ao evento. Me cobrou um longo relatório, a marcha, a declamação, os aplausos, quem me aplaudiu, quem me cumprimentou. E também comecei a perceber que o temperamento exaltado da alma paterna já possuia, ao lado das eventuais alegrias, a marca de alguma amargura indelével.



Assim foi esse período da minha infância, mais ou menos nesse tom e ritmo

domingo, 4 de outubro de 2009

O renque de eucaliptos.


Tio Alberto que na família era chamado de Berto foi enlouquecendo silenciosa e completamente logo depois do fim da Segunda Guerra, não por causa da dita guerra ou das perseguições aos descendentes de imigrantes, muito comum naquele tempo, mas porque, dizia-se na família, Berto tinha perdido todo o dinheiro na quebradeira dos bancos e isso, talvez, diziam, tinha afetado irremediavelmente sua cabeça.
Passara a guardar o pouco dinheiro economizado na venda das colheitas debaixo do colchão, já que, como se sabia, os bancos não eram de confiança. E então, de uma hora para outra, Berto foi sendo tomado por forte sentimento de desconfiança, de tudo e de todos.
Seu quarto ficava sempre fechado à chave, que ele trazia na guaiaca, um cinto largo de couro com vários compartimentos, onde também guardava moedas, palha e fumo, um coldre e bainha para arma branca. Também era voz corrente na família que a falta de mulheres na vida de Berto seria uma das causas de sua loucura. Mas o tempo e o vento principalmente se encarregariam de negar
essa tese.

No final dos anos 40 a Vila do Lageadinho onde moravam quase todos os parentes de Berto se erguia na margem direita do rio Taquari, que nasce nos Aparados da Serra e desce naquela região de Encantado no sentido norte-sul. Na altura do Lageadinho o vale do rio forma uma grande planície de quase dois quilômetros de várzea, ladeada por montanhas dos dois lados. No vale, nos meses de outubro e novembro, a força do vento canalizado pelos morros balança os extensos milharais plantados logo depois do final do inverno.

Na noite em que Berto teve o grande surto, uma ventania fora do comum sacudiu casas e paióis por longas horas durante a madrugada. De manhã encontraram Berto espumando pela boca, em delírio, disparando palavras sem nexo no escasso dialeto vêneto do vilarejo. Ele estava junto a um comprido renque de mudas de eucalipto que plantara freneticamente desde o início da noite até pouco antes do sol nascer.

O Lageadinho ficou em estado de choque. Onde se viu, plantar eucalipto de noite. Berto plantara uma extensa fileira de mudas na extrema do potreiro que acompanhava a estrada, numa linha reta de quase quinhentos metros.
De bruços ou de barriga para cima, não saiu mais dali. Soltava um uivo agudo e praguejava contra Deus, a Virgem Maria e a Igreja. Primeiro chamaram o padre, que preferiu rezar à distância daquela alma danada. Sem conseguir resultados imediatos, o padre decidiu voltar à cidade, de onde retornou em seguida com um médico, um enfermeiro, uma ambulância e quatro soldados da Brigada. A chegada da polícia e do aparato médico trouxe Berto de volta à realidade.
Instintivamente puxou do facão, correndo para o descampado do potreiro, brandindo a lâmina em defesa. Foi cercado, laçado como um boi brabo, levado de arrasto e empurrado com violência para dentro da ambulância.

Berto foi levado para Porto Alegre onde foi internado no Hospício do Partenon. Lá ficou por mais de três meses. Um dia fugiu, atravessou a cidade a pé, de madrugada. Vadeou a nado os rios Gravataí, Sinos e Caí, sempre caminhando de noite e dormindo de dia no mato, escondido da polícia e dos enfermeiros do hospício, que ele imaginava em sua perseguição.
Depois de vagar dias e noites pelos campos da Depressão Central , Berto reencontrou o Vale do Taquari, sempre guiado pela vazante do Jacuí.

Chegou no Lageadinho depois de 150 quilômetros de caminhada, morto de fome, os pés em carne viva. Parecia um bicho envolto em trapos. Temerosa, a família não permitiu que dormisse na casa. Arrumaram um quartinho no paiol de milho e láficou Berto.

Raramente saia. Comia a comida e trocava a roupa que as irmãs traziam, mas não freqüentou mais a casa da família. Nunca mais foi à missa nem à bodega do vilarejo, mas ajudava na época de plantio e colheita. Criou fobia de polícia. Bastava que dissessem, mesmo de brincadeira, olha a polícia que ele saía rápido em direção ao paiol.

O tempo foi passando e duas décadas mais tarde a estreita fileira de mudinhas de eucalipto, plantada por Berto na noite em que enlouqueceu - transformou-se numa imponente muralha de troncos com atévinte e cinco metros de altura. Eram quase trezentas árvores enfileiradas de uma ponta a outra da cerca.
Nas tempestades, enquanto o vento ondulava os galhos mais altos, Berto perambulava por entre os troncos, admirando lá de baixo a copada revolta das árvores.
Pelo resto de seus dias Berto passou vigiando quase que diariamente a fileira de troncos, matutando em silêncio e observando a direção dos ventos.

Berto e sua loucura tranqüila passaram a fazer parte dos costumes e hábitos do Lageadinho, como a festa do padroeiro, as enchentes e as colheitas. O tédio, a indiferença e o pouco caso das pessoas nunca deram importância ao plantio do eucalipto, gesto que ficou conhecido apenas como mais uma extravagância daquele maluco solitário.

Berto morreu num dia qualquer dos anos 70. Sua parte na propriedade da família foi dividida entre os irmãos e seus poucos pertences doados à capela da vila. De Berto mesmo, a única lembrança que ficou foi o renque de eucalipto.

Alguns anos depois, quando a prefeitura do município mandou asfaltar a estrada do Lageadinho, o renque inteiro foi posto abaixo. Todos os eucaliptos foram cortados. Ficaram apenas as toras decepadas a menos de 50 centímetros do chão


Os dias se passaram e aos poucos um sentimento de estranheza foi tomando conta das pessoas. A paisagem era outra. Por mais que ignorassem era evidente que alguma coisa ali fazia falta. Uma muda e perturbadora sensação passou a tomar conta das pessoas, como se o corte do renque tivesse contrariado algum desígnio secreto.

A confirmação do pressentimento veio na primeira ventania daquele mesmo ano. Sem a defesa do quebra-vento natural formado pelos troncos e galhos dos eucaliptos, os ventos arrasaram metade da vila, derrubando paredes, destelhando casas e pondo abaixo árvores isoladas, arrastando gado e cercas.
No dia seguinte Lageadinho parecia saída de um terremoto ou de um incompreensível e inexplicável desastre. Era a primeira vez em mais de oitenta anos de vida que o lugar sofria uma catástrofe daquele porte, muito pior que a enchente de 41 que cobriu de água toda a várzea.

E então para o povo do Lageadinho ficou claro o gesto de Berto, quando, naquela longínqua madrugada de depois da guerra ele decidira plantar o renque de eucaliptos.
Berto intuira, na sua loucura, que o renque seria uma defesa para a vila, uma barreira contra os ventos. E guardara sua intenção em silêncio, como se ninguém mais do que ele merecesse a dádiva e a dimensão daquele ato, sóagora completamente entendido e revelado à sua gente.

Nos anos seguintes as toras decepadas brotaram novamente e as árvores foram renascendo. O renque de eucaliptos se refez e está de pé até hoje.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pela Via Maris atravessando o Armaggedon

Tiberíades, de manhã

Há dois mil anos a Via Maris partia de Cesaréia, na beira do mar, subia a encosta da planície de Shefelá, deixando à esquerda a meseta do Carmelo, nos contrafortes do Vale de Jezreel, cortando solenemente o Armagedon, ou Megguido, uma planície devastada pelo sol, onde hoje, depois que os israelenses drenaram a área, crescem lavouras de trigo, centeio e girassol.

Dali a estrada toma o rumo das colinas da Galiléia, costeando o Lago Tiberíades, passando ao lado dos Picos de Hittin, onde Saladino, aliás Salah-Ha-Din, derrotou definitivamente os cruzados. De Hittin, a rodovia atravessa as montanhas do Golan , entra na Síria e vai até Damasco, completando a ligação entre o Oriente Profundo e o Mediterrâneo.

Ao longo da estrada atual, a cada quilômetro emerge da terra nua e crestada a tubulação de água que atravessa Israel de norte a sul. Essa água sai do Lago de Tiberíades, aquele mesmo onde o apóstolo Pedro, aliás Simão Pedro, pescava - e vai sendo distribuída para todos os rincões do país, em tubulações cada vez menores. Quando a água chega no pé da planta, é controlada por um sistema de relé, que desliga quando chove. Quando não chove, goteja dia e noite, mantendo tudo verde, desde as alfaces da horta do kibutz até o gramado dos hotéis de turismo praiano em Tel Aviv.

Atravessamos velozmente as lavouras sulcadas do Vale do Armaguédon e eu me pergunto se não haveria um lugar melhor para acontecer a decantada batalha final, assinalada pelas profecias para ocorrer nesse mesmo vale no final dos tempos. Por enquanto, apenas um ou outro trator agrícola arrasta-se pachorrento, preparando o solo para a próxima safra. Pelo menos aqui, neste vale pretensamente apocalíptico, os arados insistem em substituir a espada.

Continuando pela Via Maris, a Estrada do Mar, logo nos deparamos com a riqueza milenar do Oriente, a oliveira. Centenas, milhares de oliveiras vão cobrindo de verde as encostas. De repente, no meio dos olivais, um posto de gasolina ou uma agência bancária surpreendem os visitantes. No período romano a Via Maris era totalmente calçada com pedras e só terminava em Damasco, a uns 90 km adiante.

A primeira parada do roteiro é Nazaré, administrada pela Autoridade Palestina. Nas cidades árabes as casas não tem telhado. O teto serve de cisterna para colher a eventual água da chuva. Nazaré deve ter uns 40 mil habitantes, vive do turismo, a parte central está tomada pelo comércio de suvenir. Faz um calor quase insuportável, as ruas não tem uma sombra, não há uma árvore onde alguém possa proteger-se do sol incandescente da Galiléia.

Não consigo ficar um instante sem a proteção dos óculos escuros. Bebo água mineral a cada 10 minutos. Depois de uma rápida caminhada decido retornar ao conforto do ar condicionado do ônibus. Charlie, o guia, retorna com o resto da turma,

e ao me ver prostrado na poltrona, grita dizendo que eu estou pronto para passar um dia no deserto!

Uma hora depois, de volta à Via Maris, avistamos ao longe o azul do Mar de Tiberíades - Kinéret em hebraico, Tiberíades é a nomenclatura grega da época quando o uso dessa língua era universal e Roma e Atenas e o império estavam nas mãos de Tibério.

Aqui também os morros estão sempre cobertos pelas oliveiras. O ônibus vai descendo em direção a Cafarnaum (Kfar Nahum), a Aldeia de Naum, nossa primeira parada junto às águas tranqüilas desse lago histórico e bíblico.

De onde estamos não se vê areia nem praia, a água bate diretamente no penhasco. Na rocha é bem visível a marca do nível da água, dois metros mais baixo, devido ao excessivo consumo dos últimos anos. Me diz o Charlie que a conta de água em Israel é três a quatro vezes mais alta do que a taxa de eletricidade, o que é bastante compreensível, neste país onde a água não cai do céu. E quando cai é recolhida e conservada em reservatórios e cisternas.

Novo desfile de ruínas históricas em Cafarnaum: sinagogas milenares, destruídas por seguidas guerras. Templos cristãos com inscrições em grego antigo. Restos de tumbas com a data precisa do nascimento e morte de seus ocupantes.

De Cafarnaum à cidade de Tiberíades, há uma profusão de arbustos floridos nos dois lados da estrada, dando um aspecto ajardinado à rodovia. A cidade está comprimida entre a montanha e o mar de água doce. Casas magníficas foram construídas em terraços em toda a extensão da montanha circundante. E novamente a arquitetura absolutamente branca das cidades israelenses domina a paisagem.

Depois de visitar uma loja de diamantes lapidados, seguimos em direção ao sul do Kinerét, onde o Jordão retoma seu leito rumo ao Mar Morto. As margens desse estreito curso de água são protegidas por uma densa e alta mata ciliar. Dessa forma a água do Jordão está sempre fria, devido ao sombreado do arvoredo que a circunda nas duas margens.

O Jordão é o paradeiro de milhares de turistas evangélicos que ali vem renovar o batismo em suas águas. Nessas “estações” de batismo há naturalmente um comércio intenso de suvenir. Nos restaurantes, o prato tradicional é o peixe de São Pedro, uma carpa que é pescada em abundância no Tiberíades. É de fato muito saborosa, frita ou assada.

De repente uma chicotada sonora estilhaça nossos ouvidos. É um jato da força aérea israelense patrulhando a área. Todos olham para o céu, mas não se vê nada. Quando o estampido nos atinge a aeronave já passou. Voltamos à nossa carpa frita, comodamente sentados numa mesa de varanda do restaurante à beira-mar.

Fiz camaradagem com um jovem casal de engenheiros italianos. São de Roma e claro, falam italiano o tempo todo e comigo arranham o inglês. Lá pelas tantas acabei confessando minha origem peninsular pelo lado materno. Me arrependi de ter revelado esse detalhe, porque os dois passaram a falar só italiano comigo. Mas foram uma boa companhia durante o tempo que estivemos juntos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

DIÁSPORA DE MUITAS MORADAS


Com exceção de minha mãe - nascida e criada no Passo do Lageadinho, em Encantado, endereço cuja lembrança a deixava tomada por imensa nostalgia - pertencer a alguma querência nunca fez sentido para mim, meus irmãos ou meu pai.

Quando me perguntavam de onde eu era, sentia um certo constrangimento e, no mais das vezes, até conseguir explicar que tinha nascido em tal lugar mas que já morara em quatro ou cinco outros lugares diferentes, a conversa já tinha perdido a graça.

Meu pai nasceu no interior de Montenegro, no distrito de Brochier. Detalhe: um incêndio teria destruido o cartório do lugar e assim seu Arno nunca conseguiu retirar uma segunda via da certidão de nascimento. Mas identidade e documento nunca lhe faltaram.

Desde muito jovem, treze ou catorze anos, o ainda adolescente Arno Holderbaum foi o que chamamos hoje de livre e independente. E com condução própria. A cavalo, percorreu boa parte da Serra Gaúcha, que nos anos trinta era uma teia formada por centenas de vilas e colonias interligadas por um emaranhado de picadas e estradas precárias, um desafio épico para os raros motoristas de então.

Seu Arno só dispensou o cavalo quando melhorou de vida e casou, indo morar na cidade de Encantado, numa casa comprada com o dinheiro ganho no negócio das pedras semipreciosas, que ele já então industrializava numa oficina de lapidação, instalada naquela cidade.

Desse momento minha mãe me contou a última lembrança de Bailongo, o alazão que me carregou quando eu ainda usava fraldas.

Eu já era bem grandinho e minha mãe, católica, queria me batizar contra a vontade do marido - que se dizia protestante e com uma postura acentuadamente anticlerical. Acontece que o padre do lugar nega-se a me batizar, por tomar conhecimento de que meu pai, além de não ser católico, tinha se recusado a casar em cerimônia religiosa.

Dá-se que seu Arno e o padre encontram-se por acaso, numa das estradas, ambos a cavalo. O padre, mal cumprimenta, vai direto ao assunto, procurando se explicar e defendendo, naquele caso, as posições e as normas da Igreja.

Leigo, mas conhecedor de alguns fundamentos republicanos, seu Arno respondeu na bucha que filho dele "não precisava de batismo" e que ele dispensava toda e qualquer religião, principalmente aquela que obrigava um homem "a andar vestido de saia". Desnecessário dizer que os padres, naquele tempo, ainda usavam batina.

Daí para o desentendimento aberto foi uma faísca. O padre, ofendido com a audácia daquele forasteiro, também parte para a agressão verbal.

Outros passantes param para assistir à discussão e, diz minha mãe que lá pelas tantas, meu pai não se contém, puxa do chicote, joga o braço para trás, esticando o látego ao máximo e bate com toda força no lombo do cavalo do padre, fazendo o animal disparar. O padre cai literalmente do cavalo, sendo logo socorrido e levado para a cidade. É possivel que essa tenha sido a causa de mais uma mudança de lugar na vida da família de Arno Holderbaum. Mas ninguém até hoje me confirmou.

domingo, 6 de setembro de 2009

TREM DA INFÂNCIA


Fiz algumas viagens de trem, inesquecíveis. A primeira delas foi no verão de 53, nas férias escolares, quando conheci Porto Alegre pela primeira vez. Eu tinha passado no exame de admissão, que era uma espécie de vestibular para o ginásio, quando ainda faltava um ano para completar o primário, ou seja, ao final do quarto ano primário, entrei direto no curso ginasial do Colégio Santo Antonio em Garibaldi, feito que encheu de orgulho meu pai e inchou meu ego a mais não poder.
Como incentivo ao meu esforço e também para poder custear meus estudos, meu pai decidiu pleitear uma bolsa na Secretaria de Educação da Capital. Saímos de tarde, no "Passageiro", como chamávamos o trem que fazia a linha Porto Alegre-Caxias do Sul.
Nos primeiros 60 quilômetros o comboio desceu gemendo entre os cortes dos morros, chiando os freios nos declives.
Quando terminou a serra e de repente chegamos na planície, já quase em Montenegro, a paisagem vai ficando suave e a máquina acelera pelo vale plano do rio Caí. Vem então muitas pontes metálicas, com suas treliças quadriculadas cortando velozes minha retina, como um rolo de filme rodando no projetor.
A partir de São Leopoldo, já noite alta, um mar de luzes cada vez maior e mais intenso seguia junto com a ferrovia. O trem, a toda máquina, acompanhava a estrada asfaltada - novidade para mim - coalhada de automóveis, caminhões e ônibus, e já não parava mais nas pequenas estações desativadas. Éramos apenas alguns passageiros no nosso vagão nos derradeiros quilômetros antes de chegar na parada final.
E foi um pouco antes de chegar na estação de Navegantes que eu tive uma das mais belas visões noturnas do final da minha infância. O Grande Pássaro Metálico pousado no hangar iluminado do Aeroporto Salgado Filho: um gordo, imenso e magnífico DC-3, manobrando lentamente pela pista iluminada na noite intensa daquele iesquecível verão de 1953, se despedindo dos meus doze anos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

TOP MODEL


ERA TÃO MAGRA
MAS TÃO MAGRA
QUE CHEGAVA A SER
TRANSPARENTE
DIÁFANA
VIA-SE O MUNDO
(E A FOME DO MUNDO)
ATRAVÉS DE SEU CORPO










sábado, 29 de agosto de 2009

UM CASAMENTO E DOIS CAVALOS


Meu pai foi o sexto filho de uma prole de nove irmãos. Ainda na escola primária foi excluído das salas de aula, obrigado a trabalhar. Aprendeu a ler mais tarde por conta própria ao mesmo tempo que desenvolvia o aprendizado das quatro operações - tudo mais ou menos de modo autodidata - que muito lhe valeram na vida adulta, quando se tornou, como ele mesmo se denominava, um homem de negócios.

Aos 13 anos saiu da casa paterna para seu primeiro emprego que, por sinal, abominou para o resto da vida. Foi trabalhar como ajudante numa ferraria, emprego ainda sem carteira assinada - na época não existiam as leis trabalhistas instituidas logo em seguida por Getulio - labutando das sete à sete, com meia hora para o almoço.

Pediu demissão no mesmo dia em que recebeu o primeiro salário. Com o dinheiro comprou um cavalo, seu primeiro instrumento de trabalho autônomo. Sobreviveu por mais de dois anos vendendo fumo em corda e bilhete de loteria nas vendinhas de beira de estrada ou nos acampamentos de trabalhadores, que nos anos trinta abriram as estradas de macadame nas colonias da região serrana.

Mais tarde comprou dois cavalos marchadores, "Douradilho" e "Bailongo", referência de seus gostos tangueiros. Nessas andanças, conheceu parte da serra gaúcha, até as margens do Taquari.
Nessa região foi definitivamente atraído pelo comércio de pedras, na época conhecidas como semipreciosas, que eram achadas quase a flor da terra no Vale do Rio Fão, próximo a então vila de Nova Brescia, minha terra natal, distante uns 30 km de Encantado, onde meu pai conheceu minha mãe num baile de ano novo.

A história desse encontro e do posterior casamento tem versões contraditórias.. Uma delas diz que meu pai praticamente impôs a união, cercando a noiva por todos os lados, contrariando a vontade da família dela.

A outra versão conta que a corte do pretendente foi bastante hábil. Já tendo visto a pretendida e com ela trocado olhares, meu pai mandou um emissário com um recado perguntando se poderiam dançar no tal baile de ano novo, posto que minha futura mãe era viúva de um primeiro casamento e essa condição exigia uma formalidade rigorosa para os costumes daquele tempo e lugar.

De culturas e religiões diferentes - ele protestante, ela católica - era quase natural que haveria oposição das famílias. Estavam apaixonados, me disseram vários contemporâneos - e o casamento foi inevitável. Casaram apenas no civil, o que equivalia a um escândalo para a época. As religiões tiveram que esperar.
Foto: Bette Davis e Henry Fonda

terça-feira, 25 de agosto de 2009


TANGO DE LUNAS
(Me voy de lunas)

Estou de luas
Minhas luas
Me voy de lunas

Cães de lua me cercam
Estou no centro das mordidas
Todas impostas
Todas muito bem postas

As luas vem e vão
E logo voltarão
Minhas luas

Me voy de lunas
No verão profundo
Deep summer
Você sussurrou
E depois partiu
Sem dizer adeus
Ouviram-se apenas
Gritos e sussurros
No verão profundo
Verano sureño
Aquele verão perdido
Voando nas asas
De un tango portenho

deep summer,
você gritou
pela vez derradeira
então dei-me conta
os gritos estão sempre
com decibéis a mil
no inconsciente coletivo
na memória coletiva


o velho-novo povo
sobrevive
no girar das mós
en la movida de la luna
minhas luas
estoy de lunas
me voy de lunas